19.2.16

"A névoa da guerra" - Coluna no jornal Hora do Povo, 19/02/2016

A névoa da guerra

Os tambores da guerra batem cada vez mais alto. Na Síria, houve uma escalada do conflito. A Turquia atacou uma base aérea controlada pelo YPG* na região de A'zaz, dizendo que o YPG está aproveitando a luta contra o ISIS para avançar demais sobre o território turco. Os EUA, que há apenas duas semanas elogiaram o YPG como um dos mais eficientes aliados no combate ao ISIS, ficou na delicada posição de ter que condenar uma ação militar por parte de um aliado. Esse ataque veio logo após uma decisiva ofensiva da coalizão Síria-Rússia-Irãsobre a cidade de Aleppo, uma das fortalezas dos rebeldes que querem derrubar o governo de Assad. O ataque também violou um acordo de cessar-fogo estabelecido em Munique apenas quatro dias antes. Pra completar, a Arábia Saudita e a Turquia passaram a dizer que estão apenas esperando o aval da coalizão anti-ISIS para iniciar uma invasão por terra na Síria.
O ataque ao YPG, propagandeado pela Turquia como autodefesa, nada fora do comum, acabou servindo mais de um propósito. Ao mesmo tempo que permitiu ao governo turco reafirmar sua posição contra o PKK, também enfraqueceu uma importante organização armada que está de fato atuando ao lado do governo Bashar Al Assad. A Turquia e a Arábia Saudita estão bastante comprometidas em retirar Assad do poder e, para isso, estão apoiando e financiando diversos grupos rebeldes no território sírio. Com isso, acabam indiretamente apoiando o próprio ISIS, que se beneficia da desestabilização do governo e do enfraquecimento do Exército Sírio.
O acordo de cessar-fogo foi bastante peculiar. Primeiro, é óbvio que um acordo diplomático só se aplica a entidades que acreditam na via diplomática – o que já exclui o ISIS, o Jabhat al-Nusra e inúmeros outros grupos. Isso levou Bashar Al Assad a comentar quetal acordo é simplesmente impossível de ser levado a cabo. Afinal, o Exército Sírio não vai ficar de braços cruzados enquanto os terroristas continuam a agir. Nem a Rússia, que continuou sua campanha de bombardeios em apoio a Assad – levando a mídia a condená-los por “violarem o acordo”.
O discurso em concerto da Turquia e da Arábia Saudita – ameaçando uma invasão por terra com milhares de tropas para “acabar com o conflito”– mostra que ambos os países estão impacientes com a guerra na Síria. É uma ameaça dupla. Primeiro, é uma ameaça a coalizão Síria-Rússia-Irã, já que o alvo de tal invasão é Bashar Al Assad. Segundo, é um modo de colocar os EUA contra a parede. Ou os EUA estão com os turcos e os sauditas, ou estão contra eles.


P.S.: Enquanto fecho esta coluna, um ataque brutal ocorreu na capital daTurquia, Ancara, matando 28 pessoas. O ataque foi próximo ao parlamento turco, e atingiu um ônibus que carregava soldados turcos. Até agora, nenhum grupo assumiu a responsabilidade do ataque, o que eu acho bastante suspeito. Afinal, um ataque bem sucedido num alvo tão significativo deveria ser motivo de comemoração, para um grupo terrorista. Há a possibilidade do governo turco culpar o PKK e utilizar o ataque como a gota d'água para justificar uma ofensiva militar mais robusta sobre os curdos – o que, talvez, seja o primeiro passo para a tal “invasão por terra” para tirar Assad do poder.

*: Unidades de Proteção Popular, uma organização militar que tem o apoio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Link do original: http://horadopovo.com.br/2016/02Fev/3416-19-02-2016/P7/pag7e.htm

3 comentários:

  1. Sai desse panfleto tucano, Caio. Vc escreve bem, mas o veículo é uma vetsão catos amigos plumada.

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  2. Sai desse panfleto tucano, Caio. Vc escreve bem, mas o veículo é uma vetsão catos amigos plumada.

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    1. Discordo da sua caracterização, não vejo o Hora do Povo dessa forma. Se souber de mais alguém que queira me publicar, dá um toque! Hahaha

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