22/03/2015

Post rápido

Ae, tô só escrevendo pra dizer que estou lendo o novo livro do Julian Assange, "Quando O Google encontrou o Wikileaks"! É sensacional, uma bomba nuclear de informação...!!

Abraços

21/03/2015

The Central Intelligence Agency - Parte 2 - "Plausible Deniability"

Olá, leitor.

Este post é sobre o conceito de plausible deniability. Como descrevi no post anterior sobre a CIA, todas as suas operações são autorizadas pelo National Security Council, que reúne os líderes do governo dos EUA. Porém, muitas operações passaram a ser clandestinas* e, na realidade, criminosas. Então, como isolar os líderes de possíveis processos judiciais?

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A ideia é simples: construir camadas de defesa. Antes de começar, vale dizer que não estou supondo nenhuma dessas técnicas. Este texto é baseado nas exposições de casos concretos nos livros de Victor Marchetti (ex-analista da CIA), David Wise, e L. Fletcher Prouty, e nos testemunhos de dois ex-agentes da CIA, John Stockwell e Philip Agee (este com um livro publicado no Brasil em 1976, chamado Dentro da Companhia - Diário da CIA), entre outras entrevistas e documentários.

As camadas de defesa

A "cover story". A cover story é literalmente uma "história de cobertura" que explicaria porque uma pessoa qualquer estaria fazendo uma ação qualquer. É utilizada em toda operação clandestina, mas ela aparece publicamente quando uma operação dá errado.
Por exemplo, aqui no Brasil, durante a ditadura, a polícia encontra um indivíduo com explosivos num depósito. Este indivíduo está agindo sob ordens da CIA, mas a polícia não sabe disso. Como fazer para esse caso não chegar nas mãos da CIA? Bem, esse indivíduo teria decorado uma história que diria que ele era membro de uma guerrilha de esquerda qualquer. Caso essa história não desse certo, ele poderia dizer que era de outra. Se isso também falhasse, ele diria que era um louco. Uma cover story mais elaborada envolveria uma organização criada pela CIA, um front, uma proprietary organization com todas as marcas de uma organização de verdade, que seria usada nessa situação como cobertura.
Notem que a cover story é basicamente dirigida à polícia e à mídia. Se a polícia comprar a primeira história, a mídia vai dar a manchete da guerrilha de esquerda, e acabou-se o assunto. Mesmo que a polícia descubra algo mais pra frente, se não virar manchete, a história "deu certo". Além disso, a CIA pode ter influência direta sobre um jornal ou outro, facilitando sua vida nesses casos. Nos EUA, a infiltração da CIA nos jornais ficou conhecida como Operation Mockingbird.

Os cut-outs, os intermediários. Seguindo no exemplo. O indivíduo que foi pego estava agindo sob ordens da CIA. Ou seja, haveria um agente, enviado dos EUA, dentro do Brasil, sob algum disfarce. Esse agente nunca entraria em contato direto com o indivíduo cuidando dos explosivos no depósito. Ele se utilizaria de um intermediário. Assim, esse indivíduo não saberia o nome, nem a fisionomia, nem nada desse agente, o que o isolaria do incidente. Caso alguém fosse nomeado, seria o intermediário. Na Operation Ajax (derrubada de Mossadegh no Irã em 1953 - meu post sobre isso aqui), o agente Kermit Roosevelt usou intermediários para se comunicar com os militares que ajudaram a executar o golpe. Os intermediários tem outra vantagem. Por não serem exatamente contratados pela CIA, a CIA pode alegar que não tem nada a ver com eles, também. Isso foi um dos fatores que blindou a CIA durante o escândalo Irã-Contra.

Os fronts. Os fronts são organizações criadas pela CIA, ou financiadas pela CIA. Podem ser empresas, associações ou até partidos. Normalmente são bem financiadas, profissionais, e não são totalmente "de fachada": exercem funções, tem algum propósito. Assim, atraem membros "legítimos". A CIA, por sua vez, mistura entre seus membros agentes. Esses agentes então tem uma cobertura. Isso é particularmente útil se um agente precisa, por exemplo, de um visto legítimo. É só esse front fornecer os documentos dizendo que o indivíduo vai trabalhar lá, que a maioria dos países vai fornecer um visto.
O livro A CIA e o Culto da Inteligência tem um capítulo inteiro dedicado à esse assunto. No linguajar da CIA, os fronts são proprietary organizations (organizações proprietárias). Uma das mais conhecidas é a Air America, que ajudou nas operações da CIA durante a guerra no Vietnã. Air America é também o nome de um filme, estrelando Mel Gibson e Robert Downey Jr., tratando exatamente sobre o assunto.

Finalmente, há a compartimentalização e o need to know. Esses talvez sejam os mecanismos de fundo, que estão presentes em todas as camadas de defesa e fazem parte de todas as operações secretas. Aqui não estou mais falando necessariamente de operações clandestinas, ou seja, possivelmente ilegais. Mesmo dentro daquelas operações legítimas de inteligência, esses dois mecanismos existem.
A compartimentalização quer dizer o seguinte: nenhum indivíduo saberá tudo sobre uma operação qualquer. As diferentes partes da operação, os aspectos da operação, os pequenos sub-projetos e necessidades de cada operação são feitos por indivíduos diferentes, que podem ou não comunicar-se entre si. Podem até não saber exatamente para que estão fazendo x ou y.
Voltando ao exemplo dos explosivos. Além daquele indivíduo que iria operar o atentado à bomba, haveria outros escolhendo o melhor alvo. Haveria outros, por exemplo, responsáveis por veicular na mídia artigos acusando uma guerrilha de esquerda de fazer o atentado. Haveria outros, responsáveis por pressionar o Congresso e por exigir leis mais duras para condenar os criminosos que cometeram tal crime bárbaro. E cada um desses poderia não saber da existência do outro. Porém, todos teriam ordens e estariam simplesmente aguardando o desencadeamento dos eventos.
A compartimentalização está relacionada com o need to know. O need to know é literalmente "precisar saber". Quer dizer o seguinte: você só vai saber o que você precisa saber. Ou seja, não adianta perguntar sobre outros assuntos, sobre outras operações; o seu superior determina o que você precisa saber. O indivíduo responsável pela pressão ao Congresso pode indagar, por exemplo, se o atentado foi feito pela CIA. E seu superior pode dizer que não, ou que não vai comentar no assunto. A ideia é criar confusão e incerteza, e assim insular os indivíduos envolvidos. O autor L. Fletcher Prouty dedica muito tempo à discutir esses dois pontos, sempre que foi indagado sobre como a CIA mantém seus segredos.

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Juntando tudo isso, qual o resultado?

Suponha que o National Security Council, em reunião, discuta um país que recentemente mudou de governo, e que esse governo é antagonista aos EUA. Os seus membros não vão dizer, abertamente: "matem o líder!". Mas podem dizer algo do tipo: "seria positivo para a segurança nacional dos EUA, que na próxima eleição esse governo não ganhe. Autorizamos a CIA a tomar quaisquer medidas que considere cabíveis para atingir esse objetivo". Com essa autorização em mãos, o diretor da CIA passa a articular seus agentes para atingir o objetivo. Esses agentes, por sua vez, tem autonomia e podem determinar que um atentado à bomba, ou um escândalo de corrupção, ou uma manifestação popular, ou apoio à um partido de oposição, ou todas as anteriores, seriam as melhores soluções. Meses depois, o NSC recebe os relatos de que um evento aconteceu naquele país, que enfraqueceu o governo. Foi a CIA? Para o NSC, não importa, e é melhor que eles não saibam.

Não temos acesso aos documentos que demonstrariam exatamente o encadeamento de autoridades e ordens que vão do NSC até o agente "na rua" - pois não precisamos saber. Ou melhor, não temos acesso à todos os documentos. Mas como estou tentando demonstrar aqui, há farto material para pesquisa, e é possível estabelecer bases sólidas para estudo sem entrar em "teorias da conspiração".

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*: A expansão das funções da CIA sob a seção 102(d)(5) do National Security Act (das "outras funções") se deu principalmente na direção de Allen Dulles (período de 1953-1961). Não vou me estender muito sobre essa figura, mas por enquanto vale dizer que ele era um advogado numa prestigiosa firma de advocacia, a Sullivan & Cromwell.

13/03/2015

The Central Intelligence Agency - Parte 1

Olá leitores.

Hoje, informações sobre a CIA. Nesta primera parte, sua origem. Nas próximas partes, mais facetas dessa organização. Essa série vai ser mais técnica, mas tem que estar aqui pra ficar de referência. Vou me utilizar dos seguintes livros, além da Wikipédia e outros sites:
  • O Governo Invisível, de David Wise e Thomas Ross (1964, publicado em 1968 no Brasil);
  • A CIA e o Culto da Inteligência, de Victor Marchetti e John D. Marks (1974, também publicado em 1974 no Brasil);
  • The Secret Team, do Lt. Col. L. Fletcher Prouty (1973, sem versão em português).

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A CIA foi criada numa lei de 1947, chamado National Security Act (Ato de Segurança Nacional). Foi assinado pelo então Presidente Truman e foi feito para reorganizar toda a máquina de guerra dos EUA, agora em tempo de "paz" no pós-Segunda Guerra Mundial.
Ela criou uma série de novas agências:
  • Fundiu o Departamento de Guerra e o Departamento da Marinha no National Military Establishment, chefiado pelo Secretário de Defesa, um civil. (O NME se tornou o atual Departamento de Defesa).
  • Criou o Joint Chiefs of Staff, uma unidade que reúne todos os chefes dos serviços militares.
  • Criou uma Força Aérea separada do Exército e da Marinha.
  • Criou o National Security Council (NSC - Conselho de Segurança Nacional). Os membros mudaram ao longo do tempo, mas o Presidente, o Secretário de Estado e o Secretário de Defesa sempre foram membros permanentes.
  • Criou a Central Intelligence Agency, a primeira agência de inteligência para tempos de paz que os EUA já teve. Anteriormente, no fim da guerra tais agências eram dissolvidas.
Só pra retomar as estatísticas da máquina de Segurança Nacional, a lei tinha dezessete páginas, originalmente. A versão atual, com emendas, tem 133 páginas...

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Voltando à CIA.

A CIA foi criada com funções específicas, descritas na Seção 102(d) do National Security Act. Mesmo que a agência e a lei tenham se modificado ao longo dos anos, estas funções básicas ainda se mantêm. Vamos por partes.
A primeira função é, como o próprio nome da agência diz, centralizar a análise de inteligência, do lado civil. As outras agências do governo, como o Departamento de Estado, o Departamento de Energia, etc., continuariam coletando informações e disseminando-as internamente. Porém, agora, a CIA teria acesso à essa inteligência e a utilizaria para aconselhar o NSC, nos assuntos que "se relacionam à segurança nacional". Isso já dá uma pista do real caráter da análise da inteligência da CIA. Os diferentes serviços militares (Força Aérea, Exército, Marinha, Fuzileiros Navais e Guarda Nacional) retiveram seus departamentos de inteligência próprios. Ora, já que a coleta para fins militares, de combate, ainda estava dentro dos serviços militares, pra que serviria um serviço de inteligência civil para a "segurança nacional"? Bem, para a "segurança nacional" política e econômica. Mas estou me adiantando...
A segunda função, descrita sucintamente em burocratiquês na Seção 102(d)(4), é  "executar, para o benefício das agências de inteligência existentes, serviços adicionais para o bem comum que o NSC determine que sejam alcançados mais eficientemente de maneira central". Agora, traduzindo do burocratiquês: a CIA, a mando do NSC, poderia criar meios de coleta de inteligência para além dos existentes em outras agências do governo. Traduzindo de novo: espionagem clandestina.

Essas deveriam ser as únicas funções da CIA. Porém, na Seção 102(d)(5), há uma autorização que foi explorada e abusada nas décadas que se seguiram. Lá, se lê: "executar outras funções e deveres relacionados à inteligência relacionada a segurança nacional que o NSC ocasionalmente ordene". Nessas "outras funções e deveres", se encaixou de tudo. Desde operações de propaganda e guerra psicológica, até a criação de unidades paramilitares com aviões, batalhões e armas.
Esse é um ponto que o Coronel L. Fletcher Prouty sempre chama a atenção, tanto em seu livro quanto nas várias entrevistas que fez. Prouty era membro de ligação entre o Joint Chiefs of Staff e a CIA, e esteve em muitas reuniões do NSC ao longo de sua carreira. Ele foi muito crítico dessa expansão da CIA sob a 102(d)(5). Para ele, a CIA deveria se manter com a função de análise e coleta de inteligência, e deixar a parte de operações militares para o Pentágono.

Resumindo: o propósito da CIA, a mando do NSC, seria coletar inteligência de dentro de outras agências do governo e de também de maneira independente, e com isso produzir relatórios e apresentações para o NSC*. Além disso, tinha uma autoridade ampla para executar "outras funções" relacionadas à segurança nacional, sempre que o NSC assim determinasse.

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Bem, viram que eu repeti várias vezes a mesma frase? A mando do NSC!

Por que isso é importante?

A autoridade legal que criou a CIA, e atribuiu à ela suas funções, está numa lei que é domínio público. Foi aprovada pelo Congresso dos EUA. A coleta e análise de inteligência são legais, sob essa lei.

Porém, quando a CIA passou a usar aquela seção 102(d)(5) para construir exércitos e fazer operações clandestinas, ela passou a borrar as fronteiras entre civil e militar, entre observação e ação, entre espionagem e guerra, ela passou a operar numa "zona cinzenta" jurídica. Por exemplo, quando a CIA atuou no Irã em 1953, ela tinha que obedecer as leis iranianas? As dos EUA? E quando foi ordenada a derrubada de Mossadegh? Isso foi contra a lei nos EUA? Do Irã? Quem autorizou a derrubada, cometeu um crime? E, na verdade, quem exatamente autorizou a derrubada? A ação foi um ato de guerra?

Bem, como está explícito na lei, todas as funções da CIA são autorizadas pelo NSC. Ora, se é a mando do NSC, então o NSC poderia ser responsabilizado por qualquer ação da CIA, e assim ser processado e seus membros, julgados.

Como resolver isso?

A resposta vem sob o conceito jurídico de "plausible deniability" - "negabilidade plausível". Vou dar um exemplo. Uma agência de um certo banco se envolve com lavagem de dinheiro. O banco diz que esse esquema era desconhecido de sua gerência, e se safa com isso. Mesmo sendo óbvio que é impossível a gerência não notar movimentações substanciais de dinheiro vivo ocorrendo sob seus narizes, juridicamente os advogados do banco argumentam que como não há provas do envolvimento direto e não há flagrante de seus gerentes com o esquema, eles não estão envolvidos. É a mesma coisa pra CIA. Sob esse conceito, se criaram mecanismos para que, caso fosse descoberta alguma operação da CIA, os oficiais do NSC - especificamente, o Presidente, Secretário de Estado, Secretário de Defesa, etc. - poderiam negar que sabiam de sua existência! Como fariam isso, se são eles que autorizam?

Há várias razões. Esse post vai ficar muito grande e denso se eu entrar nessa discussão. Vou ficar por aqui, e já volto com um post específico sobre isso, pois é muito importante para entender como a CIA consegue agir em tantos lugares, e no entanto ser tão pouco noticiada. Até!

*: O filme A Soma de Todos os Medos (2002), baseado num romance de Tom Clancy, tem uma cena importante em que o herói, o analista da CIA Jack Ryan, faz um desses briefings para o NSC. Aliás, filme recomendadíssimo...

11/03/2015

Golpe de Estado x "Revolução Popular"

Olá, leitor. Preparado para uma viagem no tempo?

O post de hoje vai parecer uma divagação. Porém, tem tudo a ver com o anterior, que tratou da “guerra civil” na Ucrânia.

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Hoje vou tratar do golpe de estado no Irã em 1953.

Muito do que vou descrever foi extraído deste e deste links. Neles, há documentos originais desclassificados pelo governo dos EUA descrevendo seu papel no golpe. Também vou tomar de referência as páginas da Wikipédia relacionadas ao assunto.

Em 1951, Mohammed Mossadegh foi eleito Primeiro Ministro do Irã. O Irã era uma monarquia (o soberano se chamava Xá Mohammed Reza Pahlavi), porém havia eleições para o Parlamento, que apontava o Primeiro Ministro. Mossadegh foi eleito pelo Parlamento por 79 votos a favor e 12 contra. Era um político carismático, firme e popular. Dentro de sua plataforma política, estava a nacionalização de uma petrolífera britânica, a Anglo-Iranian Oil Company, que explorava o petróleo iraniano e não partilhava seus lucros. (A AIOC hoje é a BP - British Petroleum). A nacionalização não seria um confisco dos bens da empresa; o lucro dos anos seguintes seria utilizado para pagar uma compensação.
Em 1º de Maio de 1951, Mossadegh foi adiante com sua promessa e nacionalizou a AIOC. Porém, uma série de processos judiciais, um bloqueio marítimo e a falta de pessoal técnico fez com que a produção de petróleo despencasse. Sendo assim, os possíveis benefícios da nacionalização não puderam ser sentidos. É claro, quem estava perdendo muito dinheiro era a AIOC, praticamente uma estatal britânica.
Simultaneamente à isso, a CIA e o MI6 (o serviço de espionagem britânico) começavam a planejar a remoção de Mossadegh do poder. Em abril de 1953, o então diretor da CIA Allen Dulles (que ainda vai aparecer muito neste blog) ordenou que 1 milhão de dólares fossem usados pela estação da CIA em Tehran "de qualquer forma que resultasse na queda de Mossadegh" (p. 3). Quem elaborou o plano para a derrubada de Mossadegh foi Donald N. Wilber, um agente da CIA no Irã que se passava por arquiteto. Outro agente da CIA, Kermit Roosevelt, sobrinho do falecido Presidente Franklin D. Roosevelt, ficou encarregado de executar o plano, cujo codinome foi TPAJAX.
Para isso, militares e parlamentares foram subornados; líderes religiosos foram pressionados; manifestações violentas foram organizadas; a mídia Ocidental foi manipulada para mostrar tudo como uma revolução espontânea, resultado da "impopularidade" de Mossadegh; material de propaganda foi produzido pela CIA para convencer os iranianos da remoção de Mossadegh; e, principalmente, o Xá foi pressionado a remover Mossadegh de seu cargo. A CIA teve que "assegurar [o Xá] que os EUA e o Reino Unido iriam apoiá-lo firmemente e que os ambos haviam decidido que Mossadegh deveria sair" (1º parágrafo).
A culminação do golpe foram as movimentações de 19 de agosto de 1953. Nesse dia, os golpistas organizaram uma manifestação "comunista" violenta, que destruiu e saqueou lojas. Em resposta, um grupo também organizado pelos golpistas fez uma manifestação pró-Xá, que por sua vez mobilizou os cidadãos de Teerã. Assim, o General Zahedi, que havia sido nomeado Primeiro Ministro pelo Xá como parte do movimento golpista, tomou as ruas com o exército e cercou a casa de Mossadegh. No fim do dia, ele estava com o controle do governo. Então, o Xá, que estava refugiado na Itália, voou de volta para Teerã, acompanhado de Allen Dulles.
Depois do sucesso do golpe, o Xá virou a marionete à frente do governo iraniano. Uma brutal polícia secreta, a SAVAK, foi criada com o auxílio da CIA e torturava e prendia opositores do regime, além de exercer censura. A AIOC, é claro, voltou a dar alegria ao governo Britânico e seus aliados, explorando as vastas reservas de petróleo iranianas até a revolução de 1979, que derrubou o Xá.

A história secreta desse golpe de estado, escrita dentro da CIA, apareceu pela primeira vez apenas em 2000, ou seja, 47 anos depois, numa matéria do New York Times, apesar de outros documentos já serem conhecidos (essa história é o primeiro link, lá em cima). Mesmo assim, foi um vazamento que resultou nessa revelação. A CIA, o governo estadunidense e o governo britânico ainda se recusam a divulgar milhares de páginas de documentos sobre o golpe.

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O ponto aqui não é fazer uma grande revelação. O papel dos EUA nesse golpe, e em outros, é conhecido há décadas. O meu objetivo aqui é dizer que:

Primeiro, esse foi um golpe de estado bem sucedido, executado sob ordens do alto escalão do governo dos EUA. A reação veio apenas 26 anos depois, na revolução de 1979 que instaurou o regime atual do Irã. Vale notar que o filme Argo, lançado em 2013, retrata a CIA como grande heroína ao resgatar seus agentes da embaixada, durante a revolução de 1979. Ignora totalmente a história.

Segundo, ao contrário do golpe de 1964 no Brasil, em que a participação dos EUA é dada como nota de rodapé pela maioria dos historiadores, e que "todo mundo" sabe que os EUA participaram, mas não expressam revolta por conta disso, no Irã o ressentimento é muito maior. Todos sabem, em detalhes, como foi feito o golpe. Os EUA criaram e sustentaram um regime brutal por quase 30 anos.

Terceiro, esse não foi o único golpe feito dessa maneira. O molde desse golpe foi repetido em diversos países; inclusive em seus motivos. No ano seguinte, houve um golpe na Guatemala, consequência de um governo que quis nacionalizar as terras da United Fruit Company, produtora de bananas. Outros se seguiram.

Quarto, os documentos que provam a conspiração criminosa de alto escalão para influenciar um governo estrangeiro foram ocultados por décadas. Não é que a conspiração foi algo na surdina, feita à revelia do governo dos EUA e da Grã-Bretanha; ela foi discutida, debatida e decidida dentro de suas instituições.

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Dito isso sobre o Irã...

Dada a importância geopolítica na Ucrânia, será possível que não houve nem uma operação clandestina (da CIA, ou de outras agências) no meio do tumulto que começou a atual "guerra civil" no país? Será que nenhum dos membros do novo governo não recebeu uma comunicação como a que o Xá recebeu, de que "os EUA iria apoiá-lo firmemente" caso aderisse ao movimento golpista? Hmm...

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No próximo post, vou dar um pouco de contexto para essa agência tão furtiva e no entanto tão poderosa - a Central Intelligence Agency.

03/03/2015

Impressões sobre a Crise da Ucrânia

Olá leitor,

Vou aproveitar o gancho do último post para falar um pouco da Ucrânia... Sem me estender muito.

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A Ucrânia, por diversas razões, é considerada uma "área de influência" da Rússia. Há relações étnicas, políticas, econômicas e militares entre os dois países. A Ucrânia também é um país chave no abastecimento de gás natural da Europa Ocidental. A Ucrânia sempre foi cortejada pela OTAN, porém um acordo nunca se concretizou por conta da influência russa. Na Península da Criméia, na cidade portuária de Sevastopol, que dá acesso ao Mar Negro, há uma base da Marinha russa.
Em 2010, Viktor Yanukovych foi eleito presidente da Ucrânia com uma forte votação na região leste (mais próxima da Rússia). Segundo a Wikipédia Yanukovych visualizava uma conciliação entre Ucrânia, União Européia e Rússia. Porém, em 2014, rejeitou um acordo político e econômico com a UE em favor de um acordo com a União Aduaneira do Cazaquistão, Bielorússia e Rússia. A rejeição formal do acordo com a EU e a ratificação do acordo com a Rússia iniciou os protestos em Kiev.
Foram muitos acontecimentos em rápida sucessão, e até hoje há uma guerra em curso. Vou listar algumas coisas que me chamaram a atenção:

Primeiro, a organização do protesto. Rapidamente, os locais que eram ocupados viravam verdadeiras fortalezas, contando com uma guarda paramilitar, suprimentos, etc. Isso me parece algo somente possível com meses de planejamento, boas linhas de financiamento e um grande contingente de "soldados" para levar à cabo essa missão. Numa época de vigilância total, isso é algo que requer uma organização muito profissional para não ser descoberto. Mais estranho ainda, o exército foi formado por diversos grupos que se aglutinaram sob a bandeira do Right Sector (Setor de Direita). São grupos de orientações políticas conservadoras e nacionalistas, na maioria jovens, membros de gangues. Quem unificou essas pessoas? Que motivação tiveram para se unir e lutar? Além disso, há um silêncio ensurdecedor por parte da mídia sobre o fato dessa organização ter sido essencial para a revolução. Só muito depois de ter sido concretizada a "transição" de governo que começaram a aparecer matéria sobre o Right Sector, normalmente caracterizados simplesmente como "patriotas" (linguagem utilizada na CNN e na Globo, por exemplo).

Segundo, a reação dos EUA. Total apoio ao "povo ucraniano", disse Obama (apesar da população do leste ser veementemente contra os protestos em Kiev). A Casa Branca e o Departamento de Estado condenavam em uníssono qualquer ação violenta por parte do governo para cessar os protestos. E quando qualquer violência acontecia, a culpa era sempre do governo de Yanukovych. Isso foi bastante ecoado pela imprensa brasileira. Além disso, os discursos sobre a soberania do povo ucraniano contrastam com a conversa vazada entre a Assistente do Secretário de Estado Victoria Nuland e o Embaixador dos EUA na Ucrânia Geoffrey Pyatt, assunto do meu último post, em que os dois membros do governo dos EUA discutiam em minúcias quem apoiariam no novo governo - sendo que Yanukovych sequer havia saído do poder.

Terceiro, a controvérsia sobre um dos eventos catalisadores da revolução, a "Quinta-Feira Negra", 20 de fevereiro de 2014. Dezenas de policiais e manifestantes foram mortos à tiros, e um lado acusou o outro de ter usado snipers para matar. Num (outro) vazamento de telefonema entre diplomatas (da UE e da Estônia) se ouve que "há um entendimento cada vez mais forte que quem estava por trás dos snipers é da coalizão de oposição". Os EUA, é claro, culparam Yanukovych.

Quarto, a controvérsia sobre a queda do avião MH17 em 17 de julho de 2014. Tanto a Rússia quanto os EUA dizem ter imagens de satélite que determinam a autoria do(s) disparo(s) que derrubaram o avião, porém nenhuma imagem foi publicada. Apesar de não haver nenhuma investigação conclusiva - a investigação oficial só deve sair este ano - o evento serviu de justificativa para diversas sanções econômicas contra a Rússia, por parte dos EUA e da UE. Os noticiários do mundo mostraram Putin como o grande culpado.

Quinto, o filho do Vice-Presidente dos EUA foi contratado pela maior produtora de gás natural da Ucrânia. Hunter Biden agora é o diretor da unidade legal da Burisma Holdings.

Por fim: mesmo que a revolução na Ucrânia realmente tenha sido uma revolução popular, ainda que de caráter nacionalista e conservador, os resultados dela caíram como uma luva para os EUA, a UE e a OTAN. Serviu de justificativa para deixar em "estado de alerta" os exércitos da OTAN, "parados" desde a intervenção na Líbia em 2011. Imediatamente o novo governo assinou um acordo com a UE e Poroshenko, o novo presidente, disse que quer a Ucrânia na UE até 2020. O novo governo também colocou como prioridade entrar na OTAN.

E se não foi uma revolta popular? Quem realmente organizou a revolução deu um golpe na Ucrânia tirou um presidente eleito à força, e colocou no lugar um governo sob seu controle. Mas como? Todos nós vimos dezenas de milhares de pessoas nas ruas. Será possível manipular uma população dessa maneira? E o referendo da Criméia, que a "anexou" à Rússia? Será que os russos sabiam que podiam perder toda a Ucrânia e se prepararam com o plano de manter pelo menos a região da Criméia, com sua posição geoestratégica privilegiada e a base da Marinha?

Enfim, não quero chegar à uma conclusão. Fica pra outro post. Até!
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