30/04/2019

Mudanças de Regime "do Bem"

O discurso da mudança de regime é muito bonito. Dizem que "estão ao lado do povo" do país em questão. Apontam as atrocidades do regime atual. Falam da "grave crise" na qual se encontra o país. Porém, quem apoia tais mudanças bruscas no poder executivo de um país estrangeiro está pensando seriamente nas consequências? Ao longo do tempo há inúmeros casos de tais mudanças. Aqui no Brasil passamos por uma na década de 80. No Iraque, aconteceu em 2003. Na Líbia em 2011. Na Ucrânia em 2014. Agora, há uma tentativa em curso na Venezuela.

A tal "mudança de regime", uma expressão traduzida do inglês "regime change", que por sua vez é um modo bem estadunidense, bem cínico, de se referir à um "golpe de estado", não é um processo limpo, tranquilo e racional. Um país que possui um governo central apoiado na força ou numa personalidade específica é um país muito frágil. A quebra desse governo, a descontinuidade do poder, produz uma reação em cadeia imprevisível.

No Iraque, por exemplo, Saddam Hussein estava há 24 anos no poder, num território com uma das cinco maiores reservas de petróleo do mundo. A administração Bush, na preparação para a invasão do Iraque, dizia que seria um serviço rápido, que em questão de meses Saddam seria derrubado e o Iraque se tornaria uma nova democracia. Na verdade, a invasão do Iraque se tornou uma ocupação, que chegou a ter 170 mil soldados quatro anos depois, em 2007, e hoje, em 2019, ainda tem cerca de 5 mil. O Estado Islâmico foi uma das consequências imprevistas da invasão. O grupo surgiu no Iraque e depois se espalhou por toda a região, e seus ataques terroristas já mataram em praticamente todos os continentes.

John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, declarou em 30 de abril de 2019,sobre a Venezuela: "Isto claramente não é um golpe". (Foto: flickr.com/gageskidmore)
 Na Líbia, Muammar Gaddafi, que estava no poder há mais de 30 anos, foi derrubado e brutalmente assassinado em outra campanha de "bombardeios pela democracia". O país possui uma das maiores reservas do mundo do melhor tipo de petróleo, fácil de extrair e com baixos níveis de enxofre, o que propiciou um dos maiores IDHs do continente africano. Após sua queda em 2011, o país mergulhou no caos. Até hoje, não há um governo central efetivo, inúmeros grupos terroristas passaram a utilizar o país como base, parte da infraestrutura foi bombardeada e vários bairros ainda estão em ruínas. Recentemente um general amigo dos EUA tentou tomar o poder resultando em mais derramamento de sangue.

Na Ucrânia, vizinha da Rússia, um governo amigável a Rússia foi derrubado num misto de golpe de estado com marchas e revoltas populares. O então Senador dos EUA John McCain se reuniu com os líderes da oposição, que incluía uma organização abertamente neonazista. A Assistente do Secretário de Estado, Victoria Nuland, foi gravada nomeando o futuro governo ucraniano. Depois disso, a Ucrânia mergulhou numa guerra na região de Donbass que gerou milhões de refugiados e mais de 10 mil mortos.

Na Venezuela, em 25 de janeiro deste ano, o presidente da Assembléia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente do país, após um telefonema a Mike Pence, Vice-Presidente dos EUA. Eles não perderam a "oportunidade de ouro" nem por um minuto. Convocaram Eliott Abrams, um velho conhecido de operações anti-comunistas (leia-se de sabotagem, tortura e extermínio) na América Central, para ser o "enviado especial" dos EUA a Venezuela. Isso gerou uma grande turbulência no país com as maiores reservas de petróleo da Terra e dividiu o mundo entre apoiadores de Guaidó, apoiadores de Maduro e alguns poucos "neutros". Hoje a situação se agravou, com Guaidó declarando que os militares estão ao seu lado e não mais ao lado de Maduro. Uma enxurrada de notícias, boatos, imagens e opiniões inundou a mídia. Mike Pence voltou a aparecer, tuitando em apoio a Guaidó. Bolsonaro deu um cheque em branco de R$224 milhões para o Ministério da Defesa "acolher venezuelanos", e por aí vai.

Mas o que acontece se, de fato, o governo Maduro cai? Será que os apoiadores de Maduro, que estão ao lado do governo há 20 anos, vão simplesmente aceitar? O que um governo Guaidó faria com eles? Aceitaria protestos nas ruas ou reprimiria? E os poderosos traficantes locais? Será que eles vão se sentir mais ou menos poderosos na ausência de um governo central? Será que a violência no país vai aumentar ou diminuir? E a economia, vai estabilizar rapidamente? São todas situações que os iraquianos, líbios e ucranianos vivenciaram, e os venezuelanos vão vivenciar. Não um bando de cheerleaders mal informados, bradando "viva o povo, viva a democracia, viva os EUA" a milhares de quilômetros de distância.

04/11/2018

Os Estados Unidos, a Venezuela e Bolsonaro

Há cerca de um século, os Estados Unidos da América consideram a América Central e a América do Sul como sua área de influência. As razões variaram ao longo dos anos. No início do século XX, era a ideologia do "Grande Porrete", cujo nome vem de um provérbio africano que o então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, gostava de repetir: "fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe". No berço da Guerra Fria, os anos 40 e 50, havia diversos ditadores simpáticos aos EUA, ou seja, anticomunistas. Os Somoza na Nicarágua, Fulgêncio Batista em Cuba, Trujillo na República Dominicana, Stroessner no Paraguai, Marcos Pérez Jiménez na Venezuela e por aí vai.

Em 1959 veio a Revolução Cubana, a menos de 300 quilômetros da costa dos EUA. Um grupo de guerrilheiros liderados por Fidel Castro, Raul Castro e Che Guevara derrubou o governo de Batista e se alinhou com a União Soviética. Isso fez com que a Central Intelligence Agency, a CIA, fizesse um forte investimento para derrubar Castro, culminando na tentativa fracassada de invasão na Baía dos Porcos, em 1961. Em 1963 o então presidente John F. Kennedy declarou que era necessário "usar todos os recursos para prevenir o estabelecimento de outra Cuba neste hemisfério". Se sucederam ditaduras no Brasil, na Argentina, no Uruguai, em Honduras e na Nicarágua, entre outros.

A política do "Grande Porrete". Foto: Wikimedia commons.

Em 2002, após Hugo Chávez nacionalizar a exploração do petróleo na Venezuela sob o controle da Petróleos de Venezuela S. A. (PDVSA), o país sofreu um golpe de estado. Um novo presidente, Pedro Carmona, foi instalado e rapidamente reconhecido como legítimo pelos EUA. No entanto, uma movimentação rápida do exército e da população resultou na destituição de Carmona e na volta de Chávez ao poder. Este golpe é o foco do incrível documentário "A Revolução Não Será Televisionada". Chávez ganhou sucessivas eleições até sua morte em 2013, quando seu vice, Nicolás Maduro, assumiu e se mantém na presidência até hoje. O país, apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo, vive uma gravíssima crise hiperinflacionária e de abastecimento.

O giro do Brasil

Nos anos dos governos Lula e Dilma, o Brasil foi aliado da Venezuela. Por causa da crise no nosso vizinho, esse apoio foi assunto durante a campanha para a Presidência do Brasil. Outro assunto recorrente entre os eleitores foi o nosso regime militar. Por um lado, o temor de um governo de esquerda causar aqui a mesma catástrofe que Maduro causou por lá. Ao mesmo tempo, a certeza de que o regime militar combateu duramente os comunistas, e, portanto, para prevenir que o Brasil "virasse uma Venezuela", era necessário eleger alguém da linhagem do regime militar e não da esquerda. Esse alguém foi Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, do Partido Social Liberal (PSL).

Inspirado em Donald Trump - um apresentador de TV de língua solta com uma forte presença nas redes sociais que se elegeu presidente dos EUA contra todas as probabilidades - o capitão conquistou o eleitorado com o discurso anticomunista e anticorrupção - uma corrupção ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), a principal força de esquerda no Brasil e o partido do seu oponente Fernando Haddad. Ganhou o segundo turno com 57 milhões de votos, a segunda maior votação da história do Brasil, atrás apenas daquela recebida por Lula, o líder encarcerado do PT, no segundo turno de 2006.


Num ato a favor de Bolsonaro, no domingo anterior à votação, o candidato fez um discurso inflamado contra a esquerda, dizendo que iria "varrer os marginais vermelhos" e que diversas figuras do PT, incluindo seu adversário no pleito, "iam apodrecer na cadeia". Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, no mesmo ato disse, em relação a Venezuela, que o Brasil iria "libertar nossos irmãos da fome e do socialismo", que "a melhor solução para a crise migratória que nós vivemos é a saída de Maduro do poder" e que "a gente vai dar uma lição nesse narcoditador". Ele também citou o então candidato a vice-presidência General Hamilton Mourão, que disse em sabatina à GloboNews que "a nossa próxima força de paz será na Venezuela". Durante a apuração dos votos, o deputado estava reunido com um grupo de oposição à Maduro, o Rumbo Libertad.

Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, falou em "opção militar" em agosto do ano passado, a respeito do nosso país vizinho. No início de setembro o New York Times fez uma matéria sobre as discussões entre oficiais dos EUA e comandantes militares da Venezuela sobre um golpe no país.  No final do mesmo mês, em reunião com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, Trump disse que iriam falar da Venezuela e que o país era um "desastre que precisa de uma limpeza". Na segunda-feira, dia 29, um dia após o segundo turno, uma matéria da Folha com uma fonte anônima do alto escalão do governo colombiano afirmou que a Colômbia apoiaria uma operação militar contra a Venezuela lançada por Trump ou Bolsonaro. O governo colombiano, por meio de uma declaração em vídeo, negou qualquer sugestão de intervenção militar, porém a Folha não se retratou e manteve a matéria no ar.  A Colômbia tem tratados militares com os EUA, faz manobras em conjunto com o exército estadunidense e é um forte aliado do país na região. No mesmo dia, Trump ligou para Bolsonaro e disse que teve uma boa conversa com o presidente eleito, e que os EUA irão trabalhar junto com o Brasil "no comércio, forças armadas e tudo mais".


Também no dia 29, o ex-diretor da CIA e atual secretário de Estado Mike Pompeo ligou para Bolsonaro e conversou sobre o compromisso com a democracia e os direitos humanos e sobre a cooperação na política externa, incluindo sobre a Venezuela. Em relação aos direitos humanos, vale lembrar que a CIA e o Departamento de Estado sabiam que o alto escalão do regime militar no Brasil, na década de 70, estava diretamente envolvido na execução ilegal de pessoas consideradas "subversivas", como revelou o pesquisador Matias Spektor em maio deste ano. Esses assassinatos, no entanto, não geraram comoção nos EUA e nem resultaram em sanções ou qualquer tipo de manifestação negativa pública, na época.

Finalmente, na sexta-feira, dia 2, o Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, fez elogios à eleição de Iván Duque, na Colômbia, e Jair Bolsonaro, no Brasil, atacou os governos de Cuba, Venezuela e Nicarágua, os chamando de "troika da tirania", e disse que os EUA vão impor sanções a eles. Apesar do nome de "conselheiro", Bolton é um dos quatro membros do National Security Council (Conselho de Segurança Nacional), a mais alta entidade de comando do governo federal dos EUA, que eu já descrevi em um texto anterior.

Por mais que uma operação militar brasileira contra a Venezuela pareça algo saído de um livro de ficção, essa não é a única opção na mesa. Além da pressão diplomática, o Brasil pode aceitar servir de base para forças de "Operações Especiais" dos militares estadunidenses, ou até para mercenários e clandestinos da CIA. Na preparação da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, já citada aqui, um dos países que serviu de base foi a Nicarágua do ditador Somoza. Na Síria, rebeldes foram treinados pelos EUA na Jordânia e na Turquia para tentar derrubar Bashar al-Assad. Os EUA tem uma "oportunidade de ouro" para tais operações com um governo tão amigável no Brasil. Será que vão aproveitá-la ou vão respeitar a soberania do nosso vizinho sul-americano?

29/10/2018

11 pontos sobre o futuro governo Bolsonaro

Este não é um texto de grandes previsões, está concentrado nos movimentos iniciais do governo e principalmente na relação do governo com a mídia e o público.

Ponto 1: Bolsonaro teve uma votação expressiva, de 57 milhões de votos, e tem uma vasta rede de apoiadores. Apesar das denúncias de utilização de "spam", ainda não provadas, ele possui uma verdadeira mídia alternativa concentrada em sua própria figura. Bolsonaro, do seu celular, em conjunto com seus seguidores mais famosos e seus correligionários, consegue falar diretamente com milhões de apoiadores em questão de minutos. O único jeito de saber o que ele está falando é também segui-lo, ler os tuítes e assistir as lives. Isso estabelece uma ponte de diálogo com seus eleitores; ao invés de citar uma manchete da "manipulada" grande mídia, é possível analisar diretamente o que ele diz. Ou seja, um ponto forte da comunicação dele também abre a possibilidade de criticá-lo se baseando em suas próprias palavras.

Donald Trump na primeira coletiva após sua eleição. Foto: reprodução.

Ponto 2: Ele vem há bastante tempo se espelhando em Donald Trump. Por enquanto, isso ocorreu na campanha, mas deve continuar durante a presidência. Isso significa que podemos esperar que anúncios importantes de rumos do governo, nomeações e comentários sobre crises e eventos serão feitos via redes sociais.

Ponto 3: A grande mídia já está um pouco perdida. Assim como na esteira da eleição de Trump, estão clamando por um Bolsonaro com "modos de Presidente". Isso não deve acontecer. Ele não vai mudar de postura nem de discurso. É essa postura e esse discurso que o elegeu. Mudar seria trair toda a sua base de eleitores.

Ponto 4: Qualquer mínimo aceno de que ele ficou mais ameno, qualquer declaração mais pomposa que destoe do Bolsonaro que estamos acostumados vai ser "comemorada" como um "ponto de inflexão". Isso é uma ilusão. Com o Trump ainda tem gente esperando essa mudança, quase dois anos depois da eleição.

Bolsonaro falando em uma Live no Facebook para o ato na Paulista, 21/10/2018. Foto: reprodução.


Ponto 5: Ele vai tentar, a todo momento, desacreditar a grande mídia. Ele não vai seguir os ritos esperados. Por outro lado, nenhum presidente pode ficar sem comunicação em massa. Então, assim como Trump escolheu a Fox News para dar as caras para o público, Bolsonaro provavelmente escolherá a Rede Record. Além da entrevista durante o debate no primeiro turno, ele deu a primeira entrevista como presidente para esse canal, algo que tradicionalmente era feito pela Rede Globo. É pra ficar de olho neles e no portal R7. No rádio, a rede Jovem Pan foi a mais simpática a sua candidatura.


Ponto 6: Nessa mesma linha, ele deve valorizar algumas plataformas e personalidades online, como o portal Terça Livre, que foi recebido para uma entrevista exclusiva a poucos dias da eleição, ou O Antagonista, que tem entre seus jornalistas o Felipe Moura, que já foi retuitado várias vezes por Bolsonaro, entre outros. Os próprios congressistas eleitos pelo PSL tem um perfil ativo nas redes e podem ser usados para externar ideias do governo. Aí entram Alexandre Frota, Joice Hasselmann, seus filhos Carlos, Eduardo e Flávio e tantos outros.

Ponto 7: Ao mesmo tempo, não é de se esperar uma gestão transparente. Ele é o candidato que desde o início da eleição não queria fazer debates e que após sofrer o atentado, proibiu seus assessores de falar com o público. Ultimamente, só fala com jornalistas amigáveis.

Ponto 8: Nem tudo no seu governo vai ser ruim ou um desastre. Mas a grande mídia, por ressentimento ou ideologia, tentará esconder qualquer avanço durante o governo Bolsonaro. Pode ter índices que melhorem, como por exemplo a taxa de desemprego. Se concentrar apenas no ruim pode aumentar a divisão e a polarização e fechar portas para o diálogo com seus eleitores.

Ponto 9: Já houve vários casos de apoiadores de Bolsonaro ameaçando ou até agredindo pessoas que eram contra o então candidato. Desde o início Bolsonaro disse que não tinha "controle" sobre quem "usava uma camiseta sua e cometia um crime". Há indícios de casos forjados, mas é bom ficar de olho. Se vir algo, registre.

Ponto 10: O gabinete do governo provavelmente vai trazer figuras do setor privado para os ministérios, secretarias e estatais. Os tais "técnicos" devem ser pessoas relativamente desconhecidas, já que não são quadros políticos. Porém, podem ter grandes conflitos de interesse com seus próprios negócios. Um exemplo é Stavros Xanthopoylos, consultor do ramo da educação a distância cotado para o Ministério da Educação. Outro é o próprio Paulo Guedes, cotado para a Fazenda, cujo banco BTG Pactual está envolvido no esquema ilegal de securitização da dívida pública.

Ponto 11: O governo Temer não conseguiu passar a reforma da Previdência, por exemplo, por conta da baixíssima popularidade, escândalos de corrupção e de um Congresso engessado. O partido de Bolsonaro foi o mais fiel ao governo Temer e já sinalizaram que parte da equipe do Temer vai continuar. O novo governo, por causa do respaldo popular nas urnas, da boa bancada no Congresso e da aparente disposição pra botar a polícia na rua pra reprimir manifestantes, virá como um trator para passar medidas duras e impopulares, numa continuação do pós-impeachment.

10/10/2018

Ataques, ameaças, justiceiros e mílicias: Ligando os pontos do Bolsonarismo

Menos de 24 horas após o encerramento do 1º turno das eleições de 2018, na madrugada de segunda-feira, dia 8, o mestre de capoeira conhecido como Moa do Katendê foi assassinado a facadas num bar em Salvador, na Bahia. O criminoso, um barbeiro de 36 anos, havia ingerido bebidas alcoólicas desde a manhã de domingo e chegou ao bar às 23h, segundo a polícia. Ele confessou que o motivo do crime foi político. Ele e Moa discutiram por causa da eleição. Ele apoiava o candidato Jair Bolsonaro (PSL) e Moa, Fernando Haddad (PT).

Esse não é o primeiro e está longe de ser o último caso de violência associada aos seguidores do candidato do PSL. Os casos se acumulam. Antes da eleição, eles resolveram atacar, nas redes, a jornalista que escreveu uma matéria crítica a ele. Porém, acabaram atacando outra jornalista, com o mesmo nome, que teve seus dados pessoais divulgados na Internet e sofreu diversas ameaças. No sábado antes da eleição, Julyanna Barbosa, mulher trans, ex-vocalista do grupo Furacão 2000, foi atacada com uma barra de ferro nas ruas do Rio de Janeiro. Os agressores disseram, antes de atacá-la, que "Bolsonaro vai ganhar pra acabar com os veados. Essa gente lixo tem que morrer". No domingo, um jornalista que usava uma camiseta com a imagem do ex-Presidente Lula foi atropelado por um motorista que depois ameaçou atirar, pois tinha uma arma. No perfil do motorista no Facebook, diversas postagens de ódio ao Partido dos Trabalhadores.

Ameaça que eu recebi no Facebook. Preciso dizer que candidato ele defendia?
Numa carreata pró-Bolsonaro na cidade de Muniz Ferreira, interior da Bahia, um cachorro foi morto a tiros por um dos manifestantes. Segundo a família, quando o cachorro, chamado de Marley, começou a latir para a carreata, o homem desceu do carro e disparou no pé do cachorro. Marley correu e o homem disparou mais duas vezes e o matou. Na segunda, uma jovem foi abordada por três homens e teve uma suástica cravada na barriga com um canivete por estar usando uma camiseta com os dizeres #EleNão. Segundo o delegado, porém, os agressores desenharam um "símbolo budista". No mesmo dia, Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março deste ano, sofreu agressões verbais por homens usando a camiseta do candidato. Ela carregava sua filha de dois anos no colo. Ontem, terça-feira, um funcionário da UFPR foi agredido aos gritos de "aqui é Bolsonaro!" por um grupo de torcedores do Curitiba. Ele usava um boné do MST. Além disso, em duas ocasiões, torcedores de futebol foram gravados gritando "o Bolsonaro vai matar veado". Pelo WhatsApp e Facebook, as denúncias desses ataques estão se multiplicando.


Os ataques, infelizmente, não surpreendem. O candidato do PSL tem postura agressiva e seus apoiadores o imitam. Bolsonaro, por exemplo, deixou sua posição em relação aos homossexuais bem clara ao longo dos anos. Ele já declarou que "agora, homossexual, ninguém gosta, a gente suporta", que se um filho "começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um coro e muda de comportamento", que "não gostaria de ter um filho homossexual" e que "prefiro que meu filho morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Além disso já disse que "as minorias tem que se calar, se curvar a maioria, acabou". Em outubro, em um ato de campanha em Rio Branco, Acre, berrou em cima de um caminhão de som, segurando um tripé de câmera como se fosse uma arma, que "vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre". E foi ovacionado.

Cena do comício em Rio Branco. (Foto: reprodução).



Mesmo depois de uma enxurrada de críticas, disse que não pode se "violentar e virar o 'Jairzinho paz e amor'". Questionado por um repórter sobre como ele via esses atos de violência "em nome ou em apoio ao senhor", Bolsonaro entrou na defensiva, e primeiro disse que a vítima foi ele, que ele que levou a facada. Depois, disse que "um cara lá que tem uma camisa minha comete um excesso, que que eu tenho a ver com isso?". Continuou: "eu lamento, peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam". Terminou a resposta dizendo que "a violência vem do outro lado, a intolerância vem do outro lado" e minimizou a onda de violência falando que "tá feia a disputa, mas são casos isolados que a gente lamenta e espera que não ocorra".



A grande proposta de segurança pública do candidato é o armamento da população. Segundo ele, "o cidadão armado é a primeira linha de defesa de um país". Essa sua mentalidade que insinua a "justiça com as próprias mãos", na minha opinião, é exatamente o que está dando combustível para esses ataques. Cada um deve se defender contra aquilo que parece o ameaçar. Não importa se é uma pessoa LGBT, um "esquerdista" ou um animal. O desprezo do candidato pelos direitos humanos é outro fator. Afinal, já que não há direitos humanos universais, caberia a cada um decidir quais humanos possuem direitos e quais não possuem.

Por fim, na mesma linha de pensamento de que há espaço para a justiça com as próprias mãos, o candidato, na rádio Jovem Pan, uma vez declarou que "naquela região onde a milícia é paga, não tem violência" e defendeu as milícias em outras ocasiões. Seu filho, em 2007, falava até na legalização das milícias. O candidato voltou atrás depois, mas sem condenar as milícias como um todo - para ele, elas "acabaram se desvirtuando". Ele também foi o único candidato a presidência que não deu declarações imediatamente após o assassinato de Marielle Franco, uma parlamentar do PSOL com atuação incisiva na área de direitos humanos e que participou da CPI das Milícias. Preferiu se calar "para não politizar o assunto", porém seus filhos não tiveram problemas em fazê-lo. Os principais suspeitos do crime são milicianos.

Se ainda como candidato, já há grupos de apoiadores que se sentem a vontade para intimidar, ameaçar e agredir pessoas nas ruas, o que acontecerá se ele for eleito? Vamos lembrar, aqui neste artigo mostrei que o ódio dos apoiadores pode se dirigir a uma pessoa LGBT, a um simpatizante do PT, a uma mulher com sua filha e até a um cachorro. Não tem muito critério. Será que veremos grupos de mascarados - ou até sem máscaras - andando nas ruas com as camisetas do candidato, espancando até quem "olhar torto" pra eles?

09/09/2018

Ataque ao Bolsonaro - "Lobo Solitário" ou algo mais?

Quem me conhece, sabe que eu adoro teorias da conspiração. As teorias sobre o ataque ao candidato a presidência Jair Bolsonaro (PSL) em Juiz de Fora, Minas Gerais, na tarde de 6 de setembro, começaram a surgir minutos depois que a notícia do ataque se espalhou nas mídias sociais. Por isso, vou abordar algumas delas.

Houve uma facada ou foi tudo farsa?


Algumas pessoas apontaram a aparente falta de sangue nas imagens que mostram o ataque. As imagens em vídeo inicialmente divulgadas mostram alguém golpeando o abdômen do Bolsonaro com algum objeto. Posteriormente apareceu um vídeo que mostra claramente a faca na mão do agressor. O movimento que o agressor faz é de uma "estocada", ou seja, um golpe perfurante. A polícia posteriormente divulgou uma foto da faca utilizada e é uma daquelas comuns, serrilhadas, de cozinha, que bate com o que é visto no vídeo. A largura da lâmina, portanto, não passa de 2 centímetros.



Não achei nenhum lugar que especifique o tamanho do ferimento, mas pelo vídeo o agressor não tentou "rasgar" a barriga do presidenciável. Ele enfiou a faca e em seguida tirou. Portanto, o espaço pro sangue sair era pequeno. E como o médico entrevistado aqui explica, naquela região não há artérias superficiais que poderiam ser atingidas e fazerem "jorrar sangue". A tendência é o sangue das partes atingidas internamente se acumular dentro do abdômen, e só depois de "encher" a cavidade, começar a sair pelo ferimento de entrada. Como logo em seguida ele foi levado deitado, o sangue não espalhou pela roupa dele.

Além disso, o candidato reagiu instantaneamente, se contorcendo de dor. As pessoas mais próximas também reagem instantaneamente, algumas agredindo o homem com a faca. Depois, o candidato foi levado ao hospital e há diversas declarações sobre os detalhes do ferimento, da cirurgia, da recuperação do candidato e etc., tanto de pessoas próximas ao candidato quanto de médicos envolvidos no caso. Há também várias fotos do candidato no pós-operatório. Por isso, eu acredito estar descartada a possibilidade de uma armação no que diz respeito a agressão em si.

O próprio Bolsonaro planejou o ataque?

A teoria de que o ataque foi armado pelo próprio candidato é um pouco mais difícil de provar o contrário, pois, salvo uma declaração explícita dele, ou áudios e mensagens interceptadas, tudo fica na esfera da especulação.

A questão mais óbvia pra mim é a seguinte: pra que arriscar sua própria vida por um suposto benefício eleitoral quando se é o primeiro colocado das pesquisas? Nada garante que esse ataque aumente as chances de eleição dele. O ataque de fato deu muita publicidade para o candidato, mas também o tirou das ruas por pelo menos duas semanas num momento em que ele está sendo alvo de diversas campanhas por parte dos concorrentes. Ele vai se defender com vídeos da cama do hospital? Eu duvido que os marqueteiros vão gostar disso.

Um exemplo que me vem a cabeça é o da eleição dos EUA em 1960. O embate era entre JFK e Nixon e um debate televisionado (o primeiro entre presidenciáveis na história dos EUA) foi muito importante nessa eleição. Nele, JFK aparecia jovem, bonito, disposto, animado, enfim, 100%, enquanto Nixon estava abatido e magro, fraco até, recém-saído de um tempo no hospital por uma lesão no joelho. O caso de Bolsonaro é muito mais grave e ele terá que usar uma bolsa de colostomia até dezembro. Acamado, abatido, sob o efeito de analgésicos e com dificuldade pra se locomover, fica difícil de vender a imagem de "durão que vai resolver tudo na porrada".

O agressor é um "lobo solitário" ou o ataque envolve mais pessoas?

Essa é a parte que vai dar mais "pano pra manga". Primeiramente, não dá pra tirar conclusões a partir de apenas alguns dias de informações. Uma coisa que eu aprendi pesquisando casos polêmicos como assassinatos, atentados terroristas, golpes de estado, etc., é que tem que olhar pras evidências primeiro, e depois tirar conclusões. E no momento, não temos muitas evidências, então tem que ter paciência. Tem que construir o quebra-cabeças peça por peça, com calma. Dito isso, logo que o ataque aconteceu, eu imaginei que fosse alguém simples e com algum distúrbio psicológico, um perfil frequente nestes casos. Aparentemente não há distúrbio, apesar dos advogados terem pedido uma avaliação psicológica. O agressor, Adelio Bispo de Oliveira, não possui curso superior e trabalha como servente de pedreiro mas foi descrito como "inteligente e bem-articulado" por um dos advogados. Ele também foi filiado ao PSOL de 2007 a 2014, conforme informação do site do Tribunal Superior Eleitoral.

Além disso, tem um vídeo circulando que supostamente mostra que mais de uma pessoa estava envolvida no ato. O vídeo diz que uma mulher passa a faca pra outro homem, que passa pro Adelio. Eu particularmente não vi essa sequencia de eventos no vídeo. A faca usada pelo agressor estava envolta num pano branco (provavelmente para não chamar atenção) e eu não vi o pano branco sendo passado de mão em mão.



Dá pra ver uma faca aqui? (Foto: reprodução YouTube).
Por outro lado, tem alguns fatores a considerar. Primeiro, a data é muito significativa, na véspera da comemoração da Independência do Brasil. Esse é uma data muito importante para o candidato, que sempre reforça seu patriotismo e orgulho da nação. Por causa disso, o ataque não parece ter sido totalmente aleatório e envolveu algum planejamento. A data foi escolhida para o máximo de impacto.

Outra coisa é o fato de Adelio ter quatro advogados particulares. Por um lado, isso parece suspeito já que ele não parece ter renda suficiente pra contratar tantos advogados. O próprio advogado de Bolsonaro, o deputado federal Fernando Francischini (PSL-RS), chamou atenção pra isso. Por outro, há advogados que pegam casos como esses simplesmente pela publicidade associada. O Estado de Minas fez algumas matérias abordando esse aspecto (aqui e aqui) e de fato um dos advogados diz explicitamente que "a visibilidade, para nós, é bem-vinda. Chegamos primeiro". A remuneração é "irrisória" e custeada por uma igreja, que não teve o nome divulgado.

Por último, o Ministro da Justiça Raul Jungmann usou as palavras "lobo solitário" pra descrever o agressor. Como ele pode chegar a essa conclusão em tão pouco tempo? Ainda mais considerando que há outro suspeito preso e o próprio Ministro também dizer que estão investigando a rede de contatos do agressor. Acredito que ele tenha usado essas palavras para estancar as especulações de envolvimento dos adversários de Bolsonaro na eleição. Esse tipo de especulação partiu até do próprio vice da chapa de Bolsonaro, General Hamilton Mourão, que afirmou em nota que foi um "militante do Partido dos Trabalhadores" que atacou seu colega. Fake news, já que o agressor não foi filiado ao PT e sim ao PSOL.

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Esses são os aspectos mais importantes que eu vi sobre o caso. Faltou abordar alguma teoria? Manifeste-se nos comentários!

29/08/2018

Mais uma semana de violência

O Brasil é um país com grande número de homicídios. Em 2016, foram mais de 62 mil mortos, um recorde histórico. A taxa de homicídios de 30 por cem mil habitantes nos coloca entre os vinte países mais violentos do mundo. Além disso, temos mais de 646 mil presos no sistema carcerário, a maior parte por causa do tráfico de drogas. Uma boa parte está aguardando julgamento e faltam vagas pra tanto preso. Mas as estatísticas ofuscam a realidade dessa violência. Como essa violência se deu, por exemplo, na semana passada?

Segunda-feira, 20 de agosto

- Uma operação das Forças Armadas nas favelas da Maré, do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou pelo menos seis mortos, incluindo um militar, segundo o portal G1. Para o Estadão, foram treze.

- Dezesseis presos da penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, foram indiciados pela morte de quatro detentos no domingo, dia 19. Alcaçuz foi o palco de uma rebelião sangrenta em janeiro de 2017, que em 14 dias deixou 26 mortos.

- Uma mulher foi baleada no pescoço e morreu numa blitz em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Ela e o marido estavam no automóvel, que havia sido roubado em abril e recuperado recentemente. Eles iriam ao Detran regularizar a situação do carro no dia seguinte. Segundo o marido, ele parou imediatamente quando foi ordenado a fazê-lo pelos policiais. Segundo a polícia, a ordem para parar não foi obedecida, houve perseguição e o motorista tentou atropelar um policial. Na sequência, houve o disparo letal.

Terça-feira, 21 de agosto

- Uma adolescente foi morta em Pouso Alegre, Minas Gerais, enforcada pelo namorado. O assassino ainda tentou disfarçar o crime ligando para a família da menina e dizendo que não conseguia a encontrar. A polícia foi acionada e estranhou quando o suspeito agiu friamente ao encontrar o corpo.

Quarta-feira, 22 de agosto

- Um preso foi morto, enforcado com um fio de náilon, numa penitenciária em Canoas, no Rio Grande do Sul.

- Dois homens foram mortos em Manaus, capital do Amazonas, num ponto de venda de drogas, segundo o Portal do Amazonas.

Mortos em Manaus. Foto reproduzida do site Portal do Amazonas.
 - Em Caapiranga, também no Amazonas, a população foi pra frente da delegacia onde se encontrava uma suspeita de assassinar um jovem pois a suspeita disse que não iria revelar a localização do corpo. Na confusão, os policiais dispararam contra a população, que revidou com pedradas. A polícia alega que havia manifestantes armados. Uma pessoa foi morta e onze feridas.

- Em São Paulo, dois africanos foram mortos, um a facadas e outro a tiros, em dois crimes separados.

- Uma mulher que teve seu corpo queimado no domingo morreu após três dias no hospital. A mãe da vítima testemunhou o ocorrido e disse que foi o ex-namorado que jogou álcool na vítima e ateou fogo.

Quinta-feira, 23 de agosto

- Em Uarini, no Amazonas, 36 detentos destruíram uma delegacia durante uma visita de rotina da PM.

- Em Arcoverde, Pernambuco, internos da Fundação de Atendimento Socioeducativo atearam fogo em colchões, num princípio de rebelião.

- Em Manaus, um homem foi executado com 11 tiros enquanto almoçava num restaurante.

Sexta-feira, 24 de agosto


- Em Manaus, um homem foi morto a tiros após se recusar a entregar seu celular a assaltantes


Sábado, 25 de agosto


- Um homem foi morto com uma facada em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, após uma briga de bar.

Domingo, 26 de agosto

- Em Manaus, um homem foi morto a tiros dentro do seu carro. Outro foi morto a tiros quando estava com amigos num bar.
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