18/02/2018

Como a CIA mantém seus segredos?

Uma pergunta que eu recebo bastante quando descrevo alguma operação clandestina/ilegal/secreta da CIA ou de outra organização é "mas como ninguém fala dessas operações?" ou "não tem como um segredo se manter por tanto tempo".

Da esq. para a dir.: Colleen Rowley (ex-FBI), Thomas Drake (ex-NSA), Jesselyn Raddack (ex-Departamento de Justiça), Ed Snowden (ex-CIA e NSA), Sarah Harrison (Wikileaks) e Ray McGovern (ex-CIA).

Minha resposta tem duas partes. A primeira: os segredos nem sempre se mantém por tanto tempo. Na foto, estão Colleen Rowley (ex-FBI), Thomas Drake (ex-NSA), Jesselyn Raddack (ex-Departamento de Justiça), Edward Snowden (ex-CIA e NSA), Sarah Harrison (Wikielaks) e Ray McGovern (ex-CIA). Os quatro primeiros são whistleblowers, pessoas que saíram (ou foram expulsas) de suas organizações por serem contra alguma ilegalidade que testemunharam no exercício de sua função. Eventualmente eles foram a público, cada um revelando algo que os EUA queriam esconder. Há muitos outros casos. Além disso, os segredos podem ser revelados por causa de documentos que as organizações são forçadas a tornar públicos.

A segunda parte é o sistema criado e aperfeiçoado por essas organizações para impedir ou silenciar aqueles que expõem os segredos delas. É parte central do trabalho dessas organizações proteger seus segredos. Elas começam essa proteção desde o início da carreira no mundo secreto.

- Recrutamento: as pessoas chamadas para trabalhar nessas organizações passam por um extenso e profundo processo de seleção, que envolve até o uso de detectores de mentiras, de entrevistas com conhecidos e análise genealógica.

- Juramento: quem é contratado faz um juramento que vai manter as informações em segredo.

- Contratos de Confidencialidade: além do juramento, assinam um contrato estipulando penas severas caso violem os segredos da organização.

Isso é só o começo. Depois, ela vai para sua missão. Pra cada missão, pode ter um novo contrato de confidencialidade, para que a pessoa possa receber as informações secretas sobre a missão. Conforme a pessoa avança dentro da organização, entra a parte subjetiva, que é o sentimento de participar de algo secreto, de saber os segredos do seu país, da lealdade aos companheiros e à nação, de pertencer a uma elite. Revelar algum segredo é visto como uma grande traição.

Mas mesmo assim, alguns podem questionar sua missão. Em geral, primeiro o fazem internamente, para seus superiores ou para a Corregedoria da organização. E aí vem a outra parte do sistema, para silenciar:

- Retaliação/ameaças dentro do ambiente de trabalho: o funcionário é colocado em outra função, às vezes em outra cidade ou país, ou pode perder uma promoção, ou seu cargo.

- Omissão: os funcionários que protestam formalmente tem inúmeros obstáculos. Um memorando se perde, uma gravação desaparece, uma reunião é esquecida, fazem de tudo internamente para que o funcionário desista da reclamação.

Mesmo assim, alguns ainda vão a público, e a pressão continua.

- Ataques pessoais: se o indivíduo foi identificado e foi a público, as agências usam seus contatos na mídia para revelar segredos embaraçosos dos indivíduos e para atacá-los, em geral. Qualquer coisa serve para atacar.

- Ataque jurídico: o governo processa o funcionário, normalmente por múltiplos motivos, qualquer coisinha errada serve. A acusação ajuda a atacar a índole da pessoa e pode colocá-la atrás das grades. Mas além disso, esses processos são muito longos e caros e podem levar a pessoa a falência. Também geram um enorme estresse. O objetivo é fazer a pessoa aceitar um acordo, no qual admitem algum crime - manchando sua ficha - e cumprem uma pena menor. Se mesmo assim, a pessoa se recusar a aceitar um acordo, eles tem a carta na manga final, o State Secrets Privilege. Invocando esse privilégio o poder executivo pode selar o caso para sempre. Isso significa que todas as evidências, os depoimentos, etc. viram segredos de estado (o processo deixa de ser público) e o caso é arquivado.

Ou seja, os segredos dessas organizações (CIA, NSA, JSOC, FBI, etc.) são levados muito a sério. Ainda que as revelações aconteçam, é por isso elas são raras...

13/02/2018

Publicação revela como Donald Rumsfeld comandou o Pentágono

O National Security Archive publicou recentemente um calhamaço de documentos do ex-Secretário de Defesa dos EUA Donald Rumsfeld. Os arquivos, chamados de snowflakes ("flocos de neve"), são anotações que Rumsfeld despachava tratando de inúmeros assuntos. Foi em um desses snowflakes que ele ordenou, poucas horas depois dos ataques de 11 de setembro, que se encontrasse alguma informação que ligasse Saddam Hussein ao ataque. O objetivo de Rumsfeld era atacar Saddam e Osama bin Laden ao mesmo tempo.

Donald Rumsfeld
Ou seja, esses arquivos podem ter informações preciosas. O Departamento de Defesa foi até a Justiça para defender que os arquivos não fossem publicados. O processo se arrastou por 6 anos até que a Justiça forçou a publicação dos arquivos - que virão em pacotes mensais. Isso por si só já é absurdo e demonstra a força do Departamento de Defesa, que com essa decisão pode arrastar a publicação completa por vários meses. Além disso, alguns trechos estão censurados.

Tratar destes arquivos deveria ser um trabalho longo, dedicado, para realmente contextualizar as decisões de um indivíduo que estava no olho do furacão de eventos que moldaram toda uma geração. Porém, como o ciclo de notícias e cliques é incessante e diário, não há mercado para investigações profundas. Ou seja, os documentos de Rumsfeld receberão uma cobertura superficial, assim como aconteceu com outras publicações muito grandes de documentos, como os arquivos do Wikileaks (Cablegate, Podesta Files, e-mails da Hillary Clinton, arquivos de Henry Kissinger), de Edward Snowden, os Panama e Paradise Papers e outros.
Essas publicações contém milhares de documentos, mas só algumas dezenas foram alvo de matérias na imprensa. Mereceram atenção durante um tempo, mas agora "juntam poeira" na biblioteca virtual, esquecidos. É claro, se espera que os jornalistas que se dedicaram aos documentos tenham feito o melhor trabalho possível e não tenham perdido nenhuma informação importante. Mas não temos certeza disso. Ainda há muito a descobrir...

08/02/2018

EUA: espionagem e desdém pela soberania e pelas leis

Coluna do dia 06/02 no jornal Hora do Povo. O original está neste link.

Os políticos dos EUA podem ter acesso a inteligência de diversas agências. “Inteligência” quer dizer um relatório, feito por analistas profissionais, baseado em informações coletadas de várias fontes. Além das fontes abertas, como jornais, rádio, TV, Internet, palestras, artigos, etc. as informações são complementadas pelo que eles chamam de “coleta clandestina”, ou seja, escutas ou espiões que obtém informações secretamente.

Nisso, já dá pra perceber um desdém pelas leis e pela soberania local – são legítimas para os EUA fontes de informações que violam leis do país onde a informação foi coletada.

Mas além disso, eles são capazes de subverter a ordem social de um país, caso consigam fazer isso em segredo. Foi assim nas dezenas de países em que a CIA promoveu “mudanças de regime” ou golpes de estado (Irã, Guatemala, Itália, Grécia, Chile, Bolívia, Brasil).

Ou seja, nem “passivamente” – na coleta de informações – nem “ativamente” – nas operações de mudança de regime – os EUA se importam com a soberania nacional. E como Snowden revelou, nem um país considerado grande aliado, como a Alemanha, na qual os EUA possui dezenas de bases militares, escapa da vigilância e da tentativa de controle.

Isso é totalmente incompatível com a mensagem de “farol da democracia” que os EUA propagam. Mas totalmente compatível com um país que se vê como dono do mundo, como o superpoder, o império mundial.

"Nada Está Além do Nosso Alcance" - selo da missão USA-247 que lançou um satélite espião da NRO, uma das agências que coletam informações para o aparato de inteligência dos EUA.

16/12/2017

A derrota do Estado Islâmico

Recentemente, Vladimir Putin se juntou a outros líderes e declarou que a guerra contra o Estado Islâmico na Síria está praticamente acabada. Em 11 de dezembro, numa visita surpresa a base militar Hmeymim, na Síria, o presidente da Rússia anunciou a retirada de uma “parte significativa” das tropas russas. Um dia antes, no Iraque, houve uma parada militar que anunciou o fim das grandes operações contra o Estado Islâmico. O primeiro-ministro do Iraque Haider al-Abadi declarou o dia 10 de dezembro como feriado nacional. Em novembro, foi a vez de Deir Ez-Zor, liberado pelo exército da Síria. Antes disso, em outubro, forças aliadas dos EUA liberaram Raqqa, na Síria, a capital do califado do Estado Islâmico. Essa vitória, por sua vez, veio na esteira da liberação de Mosul, no Iraque, com a ajuda de forças curdas e iranianas. A série de triunfos contra o Estado Islâmico é certamente o maior revés da história do califado desde que foi declarado em 2013. A área controlada pelo EI agora é a menor de sua breve história.

A guerra contra terroristas na Síria começou logo após o início da guerra civil em 2011. Protestos contra Assad rapidamente evoluíram para um conflito armado. Os EUA apoiaram os grupos rebeldes, em nome da “democracia”, contribuindo para a instabilidade no território sírio. Em 2015, um documento da DIA obtido pela ONG Judicial Watch, dos EUA, mostrou que havia informações de que estados que queriam a queda de Assad poderiam apoiar um califado no leste da Síria (na região de Deir Ez-Zor). Michael J. Flynn, ex-diretor da Defense Intelligence Agency, confirmou que os EUA deixaram que os rebeldes prosperassem para enfraquecer Assad, numa entrevista em 2015. John Kerry, então Secretário de Estado de Obama, admitiu em um áudio vazado que o governo dos EUA viu o crescimento do Estado Islâmico como uma força para pressionar Assad, mas achou que poderia “controlar” essa ascensão.

Mapa da Síria


Ou seja, tudo indica que a ascensão do Estado Islâmico não foi uma grande surpresa para os EUA, muito menos para Arábia Saudita, Qatar e outros citados no memorando da DIA. Desde o início, era sabido que as armas acabaram nas mãos de jihadistas. Recentemente novas reportagens confirmaram que armas financiadas pelos EUA foram parar inclusive nas mãos do EI. Esse fluxo de armas para os rebeldes sírios – que foi da ordem de 250 milhões de dólares por ano desde 2013 – foi encerrado abruptamente por Donald Trump no meio deste ano, uma ação que analistas previram desde novembro de 2016, quando Trump foi eleito. Será que é coincidência que após essa fonte de financiamento secar, o Estado Islâmico sofreu todas essas derrotas?

03/08/2017

John Pilger - Por dentro do Governo Invisível, parte dois

(Segunda parte traduzida do artigo Inside the invisible government: War, Propaganda, Clinton and Trump, postado no site rt.com em 28 de outubro de 2016. Parte um aqui. Os destaques são meus.)

Aliados no golpe da Ucrânia: Foto da esquerda - Oleh Tyahnybok, líder do partido Svoboda, Vitaly Klitschko (atrás), membro da oposição, Victoria Nuland (frente), Secretária-Assistente de Estado para Assuntos da Europa e Eurásia na administração Obama, Arseny Yatsenyuk, membro da oposição. Foto central - membros do partido de extrema direita Svoboda, durante o golpe na Ucrânia (notem o símbolo neonazista no braço). Foto da direita - Yatsenyuk e Tyahnybok se encontram com John McCain (Senador Republicano do Arizona, EUA).

A Ucrânia é outro triunfo da mídia. Jornais liberais respeitáveis como o New York Times, o Washington Post e o Guardian, e redes grandes como a BBC, NBC, CBS, CNN tiveram um papel crítico em condicionar sua audiência a aceitar uma nova e perigosa Guerra Fria. Todos foram enganosos ao mostrar eventos na Ucrânia como atos malignos da Rússia quando, de fato, o golpe na Ucrânia em 2014 foi trabalho dos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e a OTAN.

23/07/2017

John Pilger - Por dentro do Governo Invisível, parte um

(Traduzido do artigo Inside the invisible government: War, Propaganda, Clinton and Trump, postado no site rt.com em 28 de outubro de 2016. Os destaques são meus.)


O jornalista americano Edward Bernays é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna. Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays quem criou o termo “relações públicas” como um eufemismo para a parcialidade e suas mentiras.

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