09/06/2018

Uma espiada no mecanismo do Governo Invisível

Estudando as agências de inteligência e o chamado "Governo Invisível", aprendi que há dois tipos de vazamentos de informações confidenciais:

1. As informações embaraçosas que o Governo Invisível morre de medo que vazem.

2. As informações cuidadosamente selecionadas que o Governo Invisível quer que vazem.

Na primeira categoria, temos os casos de Daniel Ellsberg, Ed Snowden, Thomas Drake e outros. Nestes casos, a informação vazada diz respeito a graves crimes ou operações inconstitucionais que o governo está escondendo do público. Os indivíduos responsáveis por vazar essas informações são massacrados pelo sistema de justiça e pelos políticos. Em alguns casos, o funcionário se arrisca para transmitir a informação para um jornalista, e o jornalista por sua vez, trai a fonte e vai direto para a agência avisar que houve um vazamento.

Na segunda categoria, estão os vazamentos que as próprias agências de inteligência fazem, com objetivos políticos. Neste caso, elas cultivam relacionamentos com alguns jornalistas (em geral em Washington, DC), e dão informações privilegiadas - e secretas - que eles querem estampadas nas capas dos jornais. Esses relacionamentos são o "mercado dos segredos" descrito por James Risen, um veterano com 30 anos de jornalismo e vencedor de um Pulitzer. Em troca, quando esses jornalistas querem publicar algo visto como danoso, as agências intervém e bloqueiam as matérias. Como mágicos, revelam o que está na mão direita e distraem o público enquanto a mão esquerda executa todo tipo de operação ilegal e anti-ética. Com isso, eles controlam o que o público sabe e a narrativa da imprensa.

James Wolfe numa audiência no Senado em 1996. Fonte: C-SPAN.
Quinta-feira, 7 de junho, um dos "vendedores" do mercado de segredos foi preso [correção: foi detido, interrogado e liberado], acusado de vazar informações para uma jornalista (com quem também teve um relacionamento amoroso). Ele é James Wolfe, o ex-diretor de segurança do poderoso Comitê de Inteligência do Senado dos EUA. O vazamento em questão ocorreu em algum ponto dos últimos 3 anos, porém ele deteve esse cargo por 29 anos. Será que ele passou 26 anos no cargo, e só resolveu vazar informações nos últimos 3 anos, sem nenhuma recompensa aparente? Na minha opinião, é óbvio que não. Uma das razões para ele se manter tanto tempo no cargo deve ter sido justamente sua habilidade de controlar o fluxo de informações sigilosas - revelando as coisas certas enquanto defendia a todo custo os segredos explosivos. 

Ele um típico membro poderoso do Governo Invisível - até hoje, seu nome era praticamente desconhecido, mas há quase três décadas ele exercia seu poder. Ou seja, entraram e saíram cinco Presidentes sem que seu poder fosse abalado. Ele fez parte dessa burocracia permanente ligada às agências de inteligência que acabam moldando a política dos governos independentemente da filiação política ou da plataforma dos membros do Executivo e Legislativo eleitos pelo público.

27/05/2018

As investigações ufológicas oficiais na América do Sul - Parte 1

No segundo dia do Congresso, o principal painel foi sobre as iniciativas oficiais do Uruguai, Chile, Argentina, Peru e Brasil. Elas são consideradas oficiais pois tem, ou tiveram, a cooperação das forças estatais, como Polícia, Bombeiros, Controladores de Vôo e Militares. Qualquer relato recebido por essas instituições é encaminhado para o órgão de investigação do país. Os investigadores também tem acesso aos relatórios delas e tem um canal aberto para pedir informações de radar ou de tráfego aéreo, por exemplo. O grau de cooperação varia de país para país.

Em sentido horário: CEFAA (Chile), CRIDOVNI (Uruguai), CIOANI (Brasil) e CEFORA (Argentina).


O primeiro a falar nesse painel foi o Coronel Ariel Sánchez Rios, vice-presidente do CRIDOVNI (Comision Receptora e Investigadora de Denuncias sobre Objetos Voladores no Identificados) e correspondente internacional da Revista UFO. Ele iniciou a apresentação marcando sua posição de que "OVNI não significa extraterrestre". Na TV e nos jornais, o sensacionalismo toma conta e quando qualquer objeto estranho é filmado ou fotografado, lá vem as referências aos "ETs". Repetindo o óbvio, Sánchez disse que "não identificado quer dizer 'não identificado', ou seja, não é possível afirmar que é extraterrestre". Mais pra frente, Rodrigo Fuenzalida do Chile também frisou esse ponto.

Ele também chamou a atenção para um documento da NASA, "Arqueologia, Antropologia e Comunicação Interestelar" (2014), que fala da possiblidade de que houve contato com outros seres no nosso passado. Como exemplo, Sánchez mostrou diversas imagens, desde pinturas rupestres até telas pintadas na Idade Média que mostram seres diferentes e até naves. Para ele, as imagens que registramos hoje com nossas câmeras, celulares e filmadoras são a continuação desses registros. Outro exemplos que ele deu foram as fotos tiradas por um astronauta a bordo da missão STS-88 da NASA, de um objeto que ficou conhecido como "satélite Black Knight (Cavaleiro Negro)" e o vídeo recentemente desclassificado do Pentágono do objeto visto próximo ao porta-aviões USS Nimitz em 2004.

Um dos slides da apresentação com pinturas da Idade Média.
O "satélite" Black Knight. Fonte: NASA.

 
 O vídeo do incidente do USS Nimitz.

Depois, ele voltou para o Uruguai, que teve ondas de avistamentos nos anos 50, 60 e 70. Houve muitos casos, denúncias, relatos e fotos. Durante os anos 60, havia associações civis que se reuniam com pesquisadores da Argentina e eventualmente buscavam informações com a Força Aérea. Finalmente, em 1979, foi fundado o CRIDOVNI, pouco depois de uma reunião da ONU que recomendou que cada país fundasse um órgão de investigação. A organização começou com 40 pessoas, mas mais pra frente ficaram só 6. Em 2001, uma organização irmã, o CRIFAT, não-governamental, foi fundada.

O CRIDOVNI tem um departamento operativo, um técnico e um de arquivo e estatística, além da direção. O objetivo é investigar os casos de forma científica, sem medo. A metodologia é coletar testemunhos e evidências e juntar com os dados de passagem de satélites e manobras militares aéreas, fenômenos astronômicos e outras coisas mais mundanas, como uma discoteca terrestre que esteja usando um laser ou um holofote. Além disso a testemunha passa por uma avaliação psicológica. O departamento operativo é responsável por ir a campo onde há alguma ocorrência, o técnico pela análise e o arquivo e estatística por compilar dados.

Entre 1979 e 2017 foram analisados 1450 casos. Desses, 43 casos (3%) foram classificados como não-convencionais. A existência do CRIDOVNI permitiu que houvesse grande força humana para invesigar 24h por dia, todos os dias do ano, e juntar num lugar só todos os eventos. Em seguida ele apresentou alguns desses casos. Num deles um objeto foi rastreado no radar viajando a Mach 10 e fazendo curvas de quase 90 graus sem reduzir a velocidade. Em outro, o objeto deixou marcas no solo e alterou a composição da terra. Os casos extraordinários são raros, mas existem. Há um preconceito contra a pesquisa ufológica que pressupõe que todos os casos são explicáveis. Porém alguns casos, investigados a fundo, seguem sem explicação. Esse é o caso não só com o CRIDOVNI, mas com outras investigações oficiais como o Projeto Blue Book (Livro Azul) dos EUA.

A conclusão do Coronel, após décadas de envolvimento com o fenômeno, é de que existe "uma tecnologia aeronáutica muito superior a nossa, que assombra nossos países, não só aqui como no estrangeiro. Podem ser humanos ou extraterrestres, mas evidentemente há uma tecnologia superior". Além disso, ele fez um apelo para que os ufólogos latinoamericanos parem de dar tanta importância para a ufologia estadunidense, e passem a confiar nas próprias investigações e conclusões.

Na segunda parte, serão descritas as outras investigações oficiais.

26/05/2018

"No Brasil, os militares não atiram nos OVNIs" - Abertura do 23º Congresso de Ufologia

Ontem, começou o 23º Congresso Brasileiro de Ufologia, em Porto Alegre. O evento é organizado pela Revista UFO, a mais antiga publicação do mundo sobre o assunto, com 450 revistas publicadas, além de inúmeros livros. Esta edição contará com palestras sobre as investigações oficiais dos militares de 5 países: Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Estados Unidos. Além disso, vários outros aspectos do fenômeno serão abordados.

O evento começou com uma apresentação de A. J. Gevaerd, um dos fundadores da Revista UFO e pesquisador há várias décadas. Ele mostrou algumas das iniciativas da revista, do Centro Brasileiro de Pesquisa sobre Discos Voadores e do Instituto Brasileiro de Exopolítica, que incluem viagens, congressos e até um curso para formar investigadores ufológicos, ministrado por um perito criminal. Uma das principais campanhas é "Caso Varginha: Temos o Direito de Saber!".

O caso Varginha, ocorrido em janeiro de 1996, é um dos mais importantes da ufologia mundial. Um objeto, detectado por radar e visto por várias testemunhas, caiu numa fazenda próxima a Varginha. O empresário Carlos de Souza estava viajando de carro, viu o objeto caindo e foi até o local investigar. Chegando lá, havia dezenas de militares no local recolhendo os destroços da nave. Um deles viu Carlos, retirou de suas mãos um pedaço da nave e o expulsou do local. Em seguida, ele foi até um posto de gasolina e lá foi abordado por dois homens que o ameaçaram. Ele ficou meses em silêncio até ver uma matéria na Revista UFO e resolver entrar em contato com o ufólogo Claudeir Covo para contar sua história[1].

Alguns dias depois, começaram as histórias de que criaturas estranhas estavam na cidade. Bombeiros capturaram uma das criaturas com uma rede, em 20 de janeiro. À noite, o PM Marco Eli Chereze encontrou outra criatura e a capturou com as próprias mãos[2]. Duas semanas depois, ele começou a sentir dores e teve paralisia progressiva. Deu entrada no hospital dia 15 de fevereiro e faleceu em seguida, aos 23 anos de idade. Os motivos para o óbito, segundo o médico, foram "insuficiência respiratória aguda, septicemia e pneumonia bacteriana"[3].
Os corpos dos seres foram levados pelos militares para a Unicamp, sob os cuidados do legista Fortunato Badan Palhares[4]. Todos os militares envolvidos foram ordenados a manter silêncio sobre o caso e todos os arquivos foram guardados à sete chaves. A Carta de Varginha explica o caso em mais detalhes.

Vinte e dois anos depois, o segredo tem que acabar. Por isso há uma petição online para pressionar os militares e liberarem a informação. A Revista UFO já se reuniu com os militares em Brasília, em 2005, e foi bem recebida lá. Porém, na reunião, o representante do Exército disse que não sabia o que estava fazendo lá, mandando uma mensagem clara que o Exército não cooperaria. A Força Aérea, como veremos mais pra frente, tem cooperado bastante com os ufólogos. O Exército estava diretamente envolvido com a recuperação dos destroços da nave e dos tripulantes em Varginha, o que talvez explique a relutância em cooperar.

Palestrantes no evento. Da esq. para a dir.: Coronel Aviador Marcos Kentaro Adachi, comandante do CINDACTA II, Coronel Antonio Celente Videira, membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra, A. J. Gevaerd, fundador da Revista UFO e Marco Antonio Petit, editor da Revista UFO.
Após a apresentação de Gevaerd, foi a vez de Marco Antonio Petit. Autor de dez livros e editor da Revista UFO desde a primeira edição, sua palestra focou nos casos ufológicos que envolveram militares brasileiros, além dos depoimentos particulares e declarações públicas de militares de todas as patentes. O objetivo foi estabelecer qual a posição oficial dos militares frente ao fenômeno, além de falar sobre a conclusão que alguns militares já chegaram, porém ainda não falam abertamente - de que na verdade, os seres humanos compartilham a Terra com outros seres, que tem diversas bases no "nosso" planeta.

A apresentação começou relembrando uma coletiva de imprensa que a Força Aérea convocou em novembro de 1954. Naquele ano, houve uma "onda" de avistamentos de OVNIs. Uma formação de OVNIs foi avistada em pleno dia pela Guarda Presidencial no Palácio do Catete. Milhares de pessoas avistaram um objeto em Curitiba e a foto estampou os jornais da época. Na coletiva, o então Chefe do Serviço de Informações do Estado Maior disse: “O problema dos discos voadores tem polarizado a atenção do mundo inteiro, é sério e merece ser tratado com seriedade. Quase todos os governos das grandes potências se interessam por ele e o tratam com seriedade e reserva, dado seu interesse militar”.

Petit também descreveu um dos primeiros encontros da Marinha brasileira com um objeto não identificado. O caso foi descrito pelo Almirante Fernando de Almeida Rodrigues e ocorreu durante a II Guerra Mundial. Os submarinos alemães estavam torpedeando navios brasileiros na costa nordestina e a Marinha era responsável por resgatar os náufragos. Ele contou que ao chegar próximo dos locais dos ataques, havia objetos luminosos no ar, em cima dos sobreviventes. Ele chegou a conclusão que seja lá quem fosse, queria ajudar. Em outro caso, ele e a filha adolescente observaram uma nave que pousou e seus tripulantes interagiram com eles. Quando o Almirante dos Discos Voadores morreu, a Marinha entrou na sua casa e confiscou muitos documentos.

Outro encontro da Marinha com esses objetos produziu uma das mais famosas fotos de OVNIs do mundo, tirada na praia de Trindade em 16 de janeiro de 1958. O navio Almirante Saldanha estava numa missão para mapear a costa e havia um fotógrafo a bordo, Almiro Barauna. De repente, os marinheiros observaram um objeto metálico, circular, no horizonte. Houve uma "convulsão" no navio, segundo o fotógrafo, entrevistado por Petit. Ele tirou diversas fotos e quatro mostraram o objeto. O próprio Presidente na época, Juscelino Kubitschek, mandou uma das fotos para os donos do Correio da Manhã, no RJ.

Montagem com duas das fotos tiradas por Barauna.
Outro caso muito conhecido foi a "Noite Oficial dos UFOs no Brasil", em 19 de maio de 1986. 21 objetos foram detectados por radar e a Força Aérea enviou caças para investigar. Um dos caças foi seguido por 13 objetos. Os militares convocaram uma coletiva na qual os pilotos puderam descrever o caso, e prometeram um relatório detalhado depois. Só que a imprensa "esqueceu" do relatório e não pressionou pela sua liberação. Petit e a jornalista Regiane Schumann conseguiram entrevistar o ministro depois, que disse que o relatório não foi divulgado porque não conseguiram chegar a algumas conclusões, como o tamanho dos objetos. O comando da força aérea foi trocado nesse interim e o novo comando negou tudo. O ministro, sabendo essa nova posição, abriu o jogo e disse:
“Naturalmente existe uma preocupação muito grande das autoridades em não divulgar notícias que possam levar ao pânico as populações, porque isto poderia provocar uma série de especulações e levar até um estado de histeria coletiva. Todos nós temos conhecimento do que aconteceu em Nova York a partir de Orson Welles, e a radio difusão de sua novela sobre a chegada dos extraterrestres”
O caso que o ministro se referiu foi o pânico que ocorreu nos EUA em 1938, quando o autor Orson Welles leu um trecho do livro A Guerra dos Mundos e milhares de pessoas acreditaram na invasão alienígena, entrando em pânico. Esse caso é muito conhecido na história da ufologia. No livro Flying Saucers from Outer Space, do Major Donald Keyhoe, que tinha acesso aos arquivos ufológicos dos EUA, ele diz que "a memória desse pânico ainda preocupava os oficiais de Defesa"[5]. Ou seja, esse era um argumento contra a revelação por parte dos militares.

Voltando à noite oficial dos UFOs, um dos aspectos mais complicados para os militares admitirem é a superioridade tecnológica dos objetos. O ex-ministro, em outra oportunidade, ficou alguns dias com Petit e então conversou mais sobre o caso. Ele disse que foi feito um levantamento total com o CINDACTA I, o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo, ou seja, as conversas entre os pilotos e os controladores, e os dados dos radares que cobriam a área onde os objetos estavam. Foi constatado que um objeto afetou um sistema de navegação de um dos caças. Também calcularam as velocidades dos objetos. Um dos objetos acelerou da imobilidade para 2000km/h em segundos, outro se moveu a Mach 15 dentro da atmosfera, algo que nenhum caça chegava próximo. A conclusão do ex-ministro foi que a tecnologia envolvida naquele caso estava tão distante da nossa realidade que "parecia magia".


Além desses, Petit descreveu um caso que ocorreu em 1962 numa patrulha no Rio Paraguai, a Operação Prato e casos na Serra da Beleza, na qual ele presenciou várias vezes objetos que parecem entrar e sair da terra. Ele também ressaltou que vários militares destacaram que não ouviram falar de um caso sequer de ações hostis por parte dos UFOs. Aqui no Brasil, para atirar num objeto desses, é necessária uma ordem presidencial. Outros países tem uma política diferente e tentam abater os objetos avistados.

Por fim, ele contou sobre uma palestra que fez no Clube Naval, no Rio de Janeiro, em abril deste ano. Segundo Petit, há grupos que discutem ufologia abertamente no Clube. Nessa palestra, ele descreveu sua hipótese sobre o acobertamento. A principal razão, para ele, é que na verdade outros seres possuem bases no nosso planeta. Militares já falaram sobre isso de forma extra-oficial mas tem medo de admitirem publicamente que os objetos foram detectados saindo da Terra, ao invés de chegando. J. Allen Hynek, o consultor da Força Aérea dos EUA sobre o fenômeno UFO durante décadas, também aludiu a esse fato em 1983, quando disse que o número de objetos rastreados na Terra é muito superior ao número de objetos que são rastreados vindo do espaço.

Sua conclusão, como pesquisador, é que o maior contato é com nós mesmos. Temos que refletir sobre quem somos, quem são eles, o que eles esperam de nós e que a humanidade é apenas uma das raças do universo. Nenhuma civilização é dona de nada e somos todos co-habitantes do universo numa jornada evolutiva coletiva.

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Há uma farta história no Brasil do envolvimento dos militares com UFOs. Para os brasileiros, os militares são a instituição mais confiável do Brasil. Ou seja, era para esses contatos e essas declarações serem de conhecimento comum - para que o assunto da ufologia não seja mais estigmatizado ou ridicularizado pela população em geral. Como disse o ministro há mais de 60 anos, o assunto tem que ser tratado com seriedade. Por isso, a questão não é de crença, e sim de acesso à informação. A Força Aérea vem liberando milhares de arquivos e cooperando com os pesquisadores. Falta a Marinha e o Exército fazerem o mesmo. Nós precisamos saber tudo que os militares já sabem sobre o fenômeno ufológico para assim, passarmos ao próximo passo: o que fazer em relação à esses outros seres que dividem conosco o universo?

Notas:

[1]: Petit, Marco Antonio. Varginha: Toda Verdade Revelada (2015), p. 58-61.
[2]: Ibid, p. 87.
[3]: Ibid, p. 129.
[4]: Ibid, p. 115.
[5]: Keyhoe, Donald E.. Flying Saucers from Outer Space (1954), p. 19.

08/04/2018

O fantasma das armas químicas na Síria

Hoje, a organização "rebelde" Jaish al-Islam acusou o governo de Bashar al-Assad de atacar a região de Douma, no entorno da capital da Síria, Damasco, utilizando armas químicas. Algumas ONGs, que desde o início do conflito na Síria acusam o governo sírio dos mais diversos crimes, ecoaram a acusação desse agrupamento rebelde radical, que recebeu fundos da Arábia Saudita. O Presidente Trump tuitou sobre o ataque, dizendo:
"Muitos mortos, incluindo mulheres e crianças, em ataques químicos estúpidos na Síria. Área de atrocidade está em confinamento e cercada pelo exército Sírio, tornando-a completamente inacessível para o mundo exterior. O Presidente Putin, Rússia e Irã são responsáveis por apoiar o animal Assad. Grande preço a pagar. Abram a área imediatamente para assistência médica e verificação. Outro desastre humanitário sem qualquer razão. Doente! Se o Presidente Obama tivesse cruzado a sua dita linha vermelha na areia, o desastre sírio teria terminado há muito tempo! O animal Assad teria sido história!"
O Departamento de Estado denunciou o ataque e uma reunião de emergência foi convocada pela ONU. Especialistas já estão utilizando o suposto ataque para culpar Assad. Fotos de crianças que a ONG "Capacetes Brancos" (White Helmets) disseminou, alegando que são vítimas do ataque do exército sírio, estamparam a primeira página do site do New York Times, da CNN e da BBC.

Capas dos sites da CNN, New York Times, BBC e BBC Brasil no dia 08/04/2018. Fonte: reprodução.
O ataque faz sentido?

Em 2013, o suposto uso de armas químicas foi o gatilho para que o então Presidente Obama ameaçasse uma ação militar ainda mais robusta na Síria.  Após deliberações privadas, o plano foi descartado. Ao invés da ação militar, chegou-se um acordo com o governo de Assad, que destruiu todo o seu estoque de armas químicas, assim como sua capacidade de produção delas. Porém, em abril de 2017, o presidente Trump decidiu lançar 59 mísseis Tomahawk contra a Síria, em resposta a um suposto ataque de armas químicas pelo exército sírio. Quase um ano depois, o Secretário de Defesa James Mattis admitiu que não havia provas que o governo sírio foi responsável pelo ataque.

Depois disso, como eu apontei no final do ano passado, Trump encerrou um programa bilionário da CIA para armar "rebeldes" na Síria e, por coincidência, o Estado Islâmico passou a perder espaço, território e poder. Isso abriu uma nova etapa no conflito da Síria. A coalizão do governo com a Rússia e o Irã passou a sistematicamente derrubar o Estado Islâmico nos vários locais que a organização jihadista dominava. Um dos últimos locais de resistência é o entorno da capital, Damasco, na região de Ghouta Oriental. Ou seja, o combate terreno está nos capítulos finais.

Mas além do programa clandestino da CIA, os EUA tem tropas das Forças Armadas na Síria para combater o Estado Islâmico. Em Al Tanf, estabeleceram uma base militar. O candidato Trump prometeu parar de "construir nações" no estrangeiro durante sua campanha e num discurso semana passada, declarou que "quer sair" da Síria. Isso gerou uma reação entre os assessores e líderes militares, que são contra a retirada.

Recapitulando

Portanto, temos estes fatos:

1. Os EUA dizem que ataques com armas químicas são intoleráveis.

2. O governo sírio destrói as armas químicas.

3. Trump tira a CIA do conflito.

4. O exército sírio declara vitória em várias cidades.

5. Trump anuncia que vai retirar as Forças Armadas do conflito também.

6. Então, o governo sírio resolve fazer a provocação suprema - um ataque com armas químicas - no último enclave dos rebeldes!

Isso não faz sentido. Só dá pra acusar o governo sírio de ser o autor desses ataques, se acreditarmos que eles são loucos. E é exatamente essa a imagem que querem passar da liderança da Síria, da Rússia e do Irã - são todos loucos, não é possível prever o que eles vão fazer e eles podem agir irracionalmente a qualquer momento. Porém loucos são pessoas que às vezes ficam internadas, às vezes não conseguem cuidar das próprias vidas, precisam de ajuda e acompanhamento - o que não condiz com o perfil de um líder responsável por milhões de vidas.

Loucos? Em sentido horário: Bashar al-Assad (Síria), Vladimir Putin (Rússia) e Hassan Rohani (Irã). Fonte: Wikimedia Commons.
Essa ação irracional, porém, faria muito sentido para os próprios rebeldes que querem derrubar o governo de Assad. A opinião pública mundial, vendo as fotos das crianças sofrendo, pode achar que um ataque dos EUA ou da OTAN é justificado, o que enfraqueceria o exército sírio e fortaleceria os rebeldes. Trump podria decidir voltar a financiar os grupos através da CIA, o que traria recursos e armas - e por aí vai. Isso é minha teoria da conspiração? Não. Mês passado, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que rebeldes iriam fazer um ataque com armas químicas e que iriam culpar o governo de Assad. Será que ele acertou?

02/04/2018

DEA, CIA e cartéis associados

(Este texto também foi publicado no jornal Hora do Povo).

A agência federal de combate às drogas dos EUA, a Drug Enforcement Agency, é uma piada. É como se você criasse uma agência pra acabar com os supermercados do país. Aí fecha O Dia, Supermercado Barbosa, Supermercado Violeta, mercadinho do bairro... E deixa Wal-Mart, Extra e Carrefour abertos.

Agentes da DEA treinando para enxugar gelo. Foto: Wikimedia Commons.
Não é culpa de seus agentes. É que quando eles chegam próximos dos barões das drogas, a CIA entra em cena e mela a operação. Se prendem algum, é porque foi feito algum acordo. Estamos vendo isso com "El Chapo", o maior traficante do México, que está preso, mas não foi acusado de vários crimes que cometeu (ou seja, houve um acordo).

Selo da CIA, também conhecida como "Cocaine Importing Agency" (Agência de Importação de Cocaína).
Foto: Wikimedia commons. 
Há vários anos atrás, fizeram o mesmo com Danilo Blandón, da Nicarágua. Quando a DEA ia prender o mega-traficante em flagrante, alguém sempre o avisava - suspeita-se que era a CIA, já que Blandón estava ajudando a financiar o exército dos "Contras" na guerra secreta da CIA na Nicarágua. Eventualmente transformaram Blandón em informante e ele ganhou várias proteções[1].

Outra mega-traficante protegida pela CIA foi Sonia Atala, uma boliviana. O ex-agente da DEA Michael Levine conta em detalhes como conseguiu ficar próximo dela e descobriu que ela estava negociando toneladas de cocaína para o Ministro do Interior da Bolívia Luis Arce Gomez. Ele estava próximo de atrair para dentro dos EUA o "Ministro da Cocaína", como Gomez era conhecido, porém sua operação foi sabotada[2]. A CIA fez parte da conspiração pelo golpe de 1980 na Bolívia, que ficou conhecido como o Golpe da Cocaína. Toda a alta cúpula militar estava envolvida no negócio e todos eram considerados "associados" da CIA. Sonia atualmente tem uma nova identidade e está no programa de proteção a testemunhas, mas segundo Levine ela continua traficando[3].

Notas:

[1] Webb, Gary (1999). Dark Alliance: the CIA, the Contras and the Crack Cocaine Explosion, cap. 18.
[2] Levine, Michael (1993). A Grande Mentira Branca, p. 539, p. 579-580.
[3] Ibid., p. 639.

30/03/2018

Os 5 tipos de agentes da CIA

O vocabulário faz parte do arsenal de técnicas da CIA para obscurecer suas operações. Hoje vou examinar como a CIA denomina seus funcionários. Há duas categorias básicas: as pessoas que são consideradas funcionários da CIA - os agentes - e os que são recrutados pela CIA, porém não têm vínculo oficial - os colaboradores.

Entrando na CIA

O funcionário da CIA é um cidadão dos EUA que é recrutado para a agência, ou que envia seu currículo para ela. Os recrutados são pessoas que se destacam de alguma forma e que a CIA, discretamente, entra em contato. Pode ser um estudante brilhante na faculdade, ou um soldado que possua alguma qualidade que a CIA está buscando, ou um funcionário de outra agência que a CIA queira recrutar. Também tem quem simplesmente manda o currículo pra lá e é chamado.

O processo de seleção da CIA é duro, de acordo com várias descrições, mas varia de acordo com a função que a pessoa vai exercer. Em geral, o indivíduo se submete à uma extensa análise de sua história, da história da sua família e de suas características pessoais. Hoje em dia, todos têm que passar por um exame no polígrafo, mas nem sempre foi assim. Antes, apenas alguns casos exigiam o polígrafo. Além disso, alguns recrutas passam por um teste por escrito.

Teste do polígrafo. Fonte: Wikimedia commons.
O funcionário que administra o teste pergunta de tudo: sobre a vida sexual, sobre crimes e delitos, história da família, vícios, etc. Uma das perguntas mais importantes, no entanto, é do contato com agentes estrangeiros. É essa pergunta que tenta descobrir se a CIA não está recrutando um espião para dentro da agência. Depois de passar pela análise do histórico e pelo polígrafo, se o recruta for para o serviço clandestino, ele vai para a Farm (Fazenda), o apelido da base de Camp Peary, da Marinha dos EUA. Lá, ele passa por um extenso treinamento e aprende desde métodos pra mandar mensagens secretas e como colocar uma escuta numa sala até como atirar e lidar com explosivos. A parte do treinamento no Camp Peary é mostrada no filme O Recruta, que eu mencionei no artigo Filmadoras e Armas, parte 2.

Funcionários da CIA

Após entrar na agência, o funcionário pode seguir várias carreiras:

Analista: este é o funcionário "de escritório" da CIA. Ele fica numa estação estrangeira ou no quartel general da CIA em Langley, Virgínia. Sua função é processar todas as informações sobre um assunto específico, "política do Brasil", por exemplo. As informações vêm de várias fontes e são chamadas de "inteligência crua". Pode ser desde uma matéria de jornal, uma entrevista ou um discurso, até mensagens interceptadas pela NSA ou uma conversa gravada por uma escuta. O analista pega essas informações e transforma num relatório, que vai pro seu cliente, que pode ser outro funcionário da CIA, um militar, um político, etc. Há vários ex-analistas que se tornam figuras públicas após se desligar da agência, como Paul Pillar e Ray McGovern.

Durante sua estadia na CIA, no entanto, esse funcionário nega que é funcionário de lá, até para parentes e amigos próximos. Há várias coberturas e uma das mais usadas é dizer que é funcionário do Departamento de Estado.

Quartel general da CIA em Langley, Virgínia. Foto: Wikimedia commons.
Agente de campo: esta pessoa passou pelo treinamento na Fazenda e aprendeu a operar clandestinamente. Ela é o mais próximo do que imaginamos quando pensamos num "agente secreto da CIA". Sabe se disfarçar, passar mensagens secretas, se infiltrar em prédios para colocar escutas, fazer contatos clandestinos, etc. Atua no exterior, normalmente sob proteção da Embaixada. Ou seja, utiliza credenciais oficiais do governo e é conhecido por um pequeno número de funcionários da Embaixada (às vezes, apenas o Embaixador). Se apresenta como "Adido da Embaixada", por exemplo. Seu superior no país é chamado de Chefe de Estação (Chief of Station, CoS, em inglês), que também é funcionário da CIA. A identidade do CoS também é secreta, obviamente. Recentemente houve um pequeno escândalo no Brasil quando a Embaixada revelou o nome do Chefe de Estação da CIA no Brasil.

Agente de campo não-oficial: este também passou pelo treinamento. Porém, ele vai para seu posto sem cobertura oficial. Ou seja, a missão oficial dos EUA desconhece sua identidade, quem paga seu salário é uma empresa de fachada e caso ele seja pego, o governo dos EUA negará que ele é seu agente. Também é conhecido pela sigla NOC (Non-Official Cover, Cobertura Não-Oficial). Valerie Plame Wilson era uma NOC da CIA que teve sua identidade revelada em 2003. Ela era a esposa de Joseph Wilson, um ex-embaixador que foi à Nigéria em 2002 para investigar se Saddam Hussein havia tentado comprar toneladas de urânio. Ele não encontrou provas disso e escreveu um relatório, que chegou até o escritório do então Vice-Presidente Dick Cheney. A Casa Branca não ficou feliz com os resultados, pois queria arranjar uma desculpa para atacar Saddam. Em retaliação, além de desacreditar o relatório, o Chefe de Gabinete de Cheney, Lewis "Scooter" Libby, vazou a identidade de Plame para a imprensa, pondo sua vida em risco e impossibilitando-a de continuar trabalhando. Esta história é contada no ótimo filme Jogo de Poder. Libby foi condenado a 30 meses de prisão em março de 2007, mas teve sua sentença modificada pelo então Presidente Bush, antes de ser preso.

Oficial: estes são os funcionários da CIA que possuem um cargo de supervisão ou de diretoria. Os do mais alto escalão (Diretores e Vice-Diretores) não são mais agentes secretos, já que seus nomes são divulgados para o público. Ou seja, são oficialmente reconhecidos pelo governo como funcionários da CIA. Normalmente têm carreiras extensas, de 20, 30 anos, dentro da CIA ou de outras agências estratégicas. Michael Hayden, por exemplo, entrou no serviço militar em 1969, fez carreira na inteligência da Força Aérea, depois foi diretor da National Security Agency entre 1999 e 2005 e terminou sua carreira no governo como Diretor da CIA entre 2006 e 2009.

Colaboradores da CIA

Esta é a categoria mais nebulosa de agentes. São as pessoas que têm a ligação mais "tênue" com a CIA. Em geral são estas pessoas que cometem mais crimes e irregularidades. Em inglês, a palavra que eles usam é asset, que quer dizer "bem" ou "recurso", um eufemismo que visa confundir quem investiga a agência. Quando alguém descobre um desses colaboradores e diz que "o agente da CIA X fez tal coisa", a CIA imediatamente pode negar que o indivíduo é um "agente". Aliás, mesmo se utilizarmos a linguagem correta, a CIA pode negar, apostando que nenhum documento que a conecte ao colaborador vai ser encontrado.

O colaborador é qualquer pessoa que tenha um mínimo compromisso com a CIA. Por exemplo, um jornalista de um jornal dentro dos EUA pode ser um colaborador. Carl Bernstein, o jornalista parceiro de Bob Woodward durante o escândalo Watergate, escreveu um extenso artigo, que foi capa da Rolling Stone, sobre a Operação Mockingbird. Nessa operação, a CIA recrutou ou plantou jornalistas dentro das principais redações dos EUA. Além de ficar de olho nos colegas e relatar à CIA quando algum deles se aproximasse de algo que a CIA queria manter em segredo, muitas vezes esses colaboradores eram os responsáveis por cobrir a CIA. Ou seja, conseguiam controlar muito bem que informação saía para a imprensa.

Outra operação que recrutou colaboradores foi a Operação ZRRIFLE, que recrutou ladrões e assassinos para colaborar com a CIA, a partir dos anos 60. A operação veio à tona durante as investigações da CPI que ficou conhecida como Church Committee. Essa operação, sobre a qual temos pouquíssimas informações, é a principal evidência de que a CIA possuía um arsenal de assassinos à sua disposição. Pouco tempo depois, o presidente Gerald Ford assinou uma Ordem Executiva que proibiu a CIA de conduzir assassinatos, porém alguns argumentam que esta ordem não vale mais nada, já que a CIA atualmente comanda um programa de drones capaz de matar pessoas do outro lado do mundo.

Durante os anos 80, em resposta à Revolução Sandinista na Nicarágua, que derrubou o ditador Anastasio Somoza, a CIA recrutou ex-membros do regime do ditador para tentar retomar o poder. O exército formado pela agência ficou conhecido como Contras. A enorme operação clandestina teve vários capítulos, que valem um artigo dedicado só a ela. Mas resumindo, a operação inicialmente foi autorizada pelo Congresso, que voltou atrás após os Contras minarem um porto na Nicarágua e causarem um incidente internacional. Eles aprovaram uma lei conhecida como Emenda Boland, que proibia o financiamento dos Contras. A Administração Reagan, à revelia do Congresso, buscou fundos com outros países, como a Arábia Saudita, além de fechar os olhos para o tráfico de cocaína por parte dos líderes Contras. Com o dinheiro do tráfico, estes comandantes financiavam o treinamento e armamento do exército Contra.

A operação sofreu um forte golpe em 1986, quando os sandinistas derrubaram um avião de transporte C-123. O piloto era estadunidense e eventualmente admitiu que trabalhava para a CIA. O Congresso dos EUA abriu uma enorme investigação que se desdobrou em vários comitês e expôs muita informação sobre como a CIA conduzia seus negócios. Foram revelados diversos colaboradores, desde o dono de um rancho da Costa Rica que deixou a CIA construir um alojamento para treinar soldados, passando por membros do alto escalão de Honduras, Panamá, Guatemala, que sabiam que havia um exército paramilitar operando em seu território mas que ficaram quietos em troca de maletas de dinheiro, até os traficantes de cocaína que doaram milhões para a "causa" dos Contras e os pilotos que transportavam armas, dinheiro e drogas para todos os lados. Todos esses colaboradores, apesar de não terem um vínculo "oficial" com a CIA, gozavam de muitos benefícios, incluindo a proteção da agência contra quem quer que tentasse interferir com seus planos.
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