07/02/2020

Os EUA não querem a paz

Os Estados Unidos da América são o único país onde sempre se debate a possibilidade de bombardear outro país, sem que haja uma guerra declarada entre ambos. Eles nunca foram bombardeados em seu território por forças inimigas em toda sua história, mas possuem o mais complexo e sofisticado aparelho militar do mundo, centenas de bases em territórios estrangeiros (1) e já bombardearam, só nos últimos dez anos, sete países diferentes (2). O Pentágono possui diversos comandos centrais que cobrem todo o globo, a Internet e agora até o espaço sideral (3). O Comando de Operações Especiais, por sua vez, atua em mais de 120 países em missões de treinamento e outras secretas, segundo estimativas. A National Security Agency (NSA - Agência de Segurança Nacional) possui o maior aparato de vigilância da história e uma instalação em Utah pretende ter espaço de armazenamento suficiente para gravar tudo que ela monitora, num permanente estado de guerra.

O Artigo 1º da Constituição dos EUA determina que apenas o Congresso pode declarar guerra. Esse documento, elaborado em meados do século 18, era uma resposta incisiva ao absolutismo e os constituintes entendiam que o poder de declarar guerra jamais poderia ficar nas mãos de uma só pessoa. Pelo contrário, deveria estar nas mãos do povo, por meio de seus representantes eleitos no Congresso, que deveriam debater abertamente as questões de guerra. A última vez que a Constituição foi respeitada, porém, foi na Segunda Guerra Mundial, quando o Presidente Franklin D. Roosevelt declarou guerra contra o Japão e em seguida contra o resto do Eixo - Alemanha e Itália - em 1941, e um ano depois contra outros países aliados ao Eixo (Hungria, Bulgária e Romênia). Nos quase 80 anos que se sucederam, todos as operações militares não foram acompanhadas dessa declaração de guerra aprovada pelo Congresso.

Selo das Forças Espaciais dos EUA, em sua tentativa de dominar até o Espaço Sideral.
Todas essas operações são autorizadas por um misto de ordens secretas, ordens aprovadas por um comitê de deputados muito estrito (chamado de "Gangue de Oito") ou ordens tão amplas que podem ser aplicadas a praticamente qualquer coisa. Durante a Guerra do Vietnã, por exemplo, a CIA e a Força Aérea dos EUA bombardearam o Laos e o Camboja secretamente, sob ordens presidenciais. Nem o Congresso nem o público foram avisados dessa campanha, que só veio a tona com um vazamento para um jornalista e com o escândalo Watergate e as subsequentes investigações do Congresso. A guerra com drones, por sua vez, se iniciou em 2001 mas só teve seus detalhes revelados em 2015, num vazamento para o The Intercept. Numa série de matérias, foi mostrado que havia um processo envolvendo os mais altos níveis da administração dos EUA, no qual oficiais decidiam quem devia morrer, literalmente. O programa continua a pleno vapor, já que os recentes assassinatos do general iraniano Qassem Soleimani e o vice-comandante das Forças de Mobilização Popular do Iraque, Abu Mahdi Al-Muhandis, foram fruto desse programa.

Além das campanhas de bombardeio, os EUA conduziram inúmeras guerras secretas por meio da CIA, que utiliza desde rádios piratas e redes sociais, passando pelo apoio a organizações políticas, think tanks e até financiamento de organizações paramilitares. Na guerra civil da Síria, a CIA canalizou um bilhão de dólares em 5 anos para financiar organizações rebeldes armadas. Duzentos milhões de dólares por ano não são nada perto dos orçamentos das guerras do Iraque e Afeganistão, que giram na casa dos trilhões, mas são uma quantidade enorme de dinheiro na Síria, cujo PIB estava em torno de 60 bilhões em 2010, antes da guerra começar. Mantendo as proporções, seria como se a CIA gastasse 7 bilhões de dólares, ou um quarto do orçamento total do Ministério da Defesa brasileiro, num exército paramilitar para invadir o Brasil. Parte das armas da CIA que chegaram ao Exército da Libertação da Síria (Free Syrian Army) acabaram indo parar nas mãos da Jabhat Al Nusra (associada a Al Qaeda) e do próprio Estado Islâmico.

As gigantes da indústria armamentista dos EUA, todas empresas públicas, listadas na Bolsa de Valores. Juntas, tem um valor de mercado equivalente ao das nove maiores empresas listadas na bolsa de valores brasileira (Petrobras, Itaú, Ambev, Vale, Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Itaú SA e B3).
O orçamento total de operações de guerra abertas e clandestinas é praticamente incalculável. O Pentágono, com seu orçamento de mais de 700 bilhões de dólares este ano, falhou todas as auditorias de suas contas, e há inúmeras agências que possuem um orçamento secreto. Pra se ter uma ideia, até a década de 70, a própria existência da NSA era secreta e a existência do National Reconnaissance Office (NRO - Escritório de Mapeamento Nacional) não foi revelada ao público até a década de 90, apesar da agência ter sido formada quatro décadas antes. O território nacional dos EUA é coberto de bases militares, gerando uma enorme dependência política. As bases movimentam a economia local e trazem milhares de empregos, fazendo com que os deputados tenham que garantir o orçamento que as mantém abertas, para não desagradar sua base eleitoral. A indústria de armamentos mundial é dominada por empresas dos EUA, e seus contratos fazem parte da própria política externa do país. Em alguns momentos, o Departamento de Estado e seus embaixadores agem quase que como lobistas ou vendedores dessas empresas.

Por fim, a guerra e as Forças Armadas são tema de inúmeros filmes e séries de Hollywood. Alguns dos filmes com as maiores bilheterias dos últimos anos tiveram alguma influência dos militares. Em troca de deixarem os produtores utilizarem as bases, os aviões, tanques, submarinos e porta-aviões, eles fazem alguns "ajustes" nos roteiros, sempre no sentido de melhorar a imagem deles e retirar críticas ou qualquer cena que possa mostrar um militar fazendo algo ruim. Ou seja, além do domínio militar duro, da influência clandestina, da economia e da política interna e externa, a guerra faz parte da cultura e da identidade estadunidense, num processo de construção que ocorre há décadas. Portanto, quando ouvir algum oficial desse governo falar em "paz", desconfie.

Notas:

(1) - Alguns dos países que sediam bases ou tropas estadunidenses são: Alemanha, Japão, Itália, Romênia, Bulgária, Polônia, Arábia Saudita, Bahrein, Djibouti, Qatar, Nigéria, Camarões, as ilhas de Diego Garcia e Guam, Filipinas, Coréia do Sul e outros. Além disso, os EUA ocupam o Iraque, o Afeganistão e a Síria.
(2) - Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Somália (com drones), Paquistão (com drones) e Iêmen (com drones).
(3) - Os comandos militares regionais são seis: NORTHCOM, que cobre a América do Norte e Caribe, SOUTHCOM, que cobre a América Central e do Sul, AFRICOM, que cobre a África, EUCOM, que cobre a Europa, CENTCOM, que cobre o Oriente Médio e parte da Ásia e o INDOPACOM que cobre Ásia e Oceania. No ano passado, foi re-estabelecido o SPACECOM, para comandar operações no espaço sideral, e a Força Espacial foi fundada como um braço separado das Forças Armadas.

11/01/2020

O império ataca novamente

Em 3 de janeiro de 2020, o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou o assassinato do Major-General Qasem Soleimani, comandante das forças de elite do Irã e considerado a segunda pessoa mais poderosa do país, e do vice-Comandante da Força de Mobilização Popular do Iraque, Abu Mahdi al-Muhandis, além do motorista deles e um adido militar. Eles foram mortos por um míssil de alta precisão que os atingiu quando estavam se deslocando de carro dentro do Aeroporto Internacional de Bagdá, na capital do Iraque. Os EUA, como sempre fazem após um claríssimo ato de agressão, cinicamente alegaram autodefesa. Segundo eles, Soleimani atualmente planejava ataques à forças dos EUA na região, além de ter sido "responsável" pela morte de militares estadunidenses no Iraque nos anos de 2007-08 e de um segurança privado num ataque com foguetes no final de dezembro do ano passado. Os EUA ocupam dois vizinhos do Irã (Afeganistão e Iraque) há mais de 15 anos e a Síria há cerca de 5, e Soleimani ajudava a resistência armada contra os EUA dentro desses países. Em linha com a estratégia de contenção, as Forças Armadas dos EUA também possuem bases ou alianças militares em outros oito países, como se vê no mapa abaixo.

Os EUA estão em pé de guerra contra o Irã desde que o ditador sanguinário Mohammad Reza Shah foi deposto na Revolução Iraniana de 1979, que instaurou o modelo de governo atual, liderado pelos aiatolás. Em 1980, quando o Iraque de Saddam Hussein atacou o Irã e tomou a região do rio Xatalárabe, os EUA prontamente se alinharam com o Iraque, e mesmo após o uso de armas químicas pelo Iraque, não se afastou dessa aliança. Nessa longa guerra de oito anos, morreram centenas de milhares de iranianos e iraquianos e foi nela que Qasem Soleimani começou a subir postos na hierarquia do exército iraniano.

Mais recentemente, após uma breve trégua no final do governo Obama, com o Acordo Nuclear, os EUA voltaram a impor inúmeras sanções econômicas contra os iranianos. As sanções são uma forma de guerra que atinge muito mais a população civil que o governo ou as forças militares do país que é alvo delas. No Iraque, estima-se que as sanções impostas na década de 90 mataram 500 mil crianças de doenças preveníveis e de desnutrição, já que sob elas, o país não podia importar comida, vacinas e remédios essenciais. Na Venezuela, um estudo recente estimou que 40 mil pessoas morreram por conta das sanções, que impediram a importação de remédios e equipamentos médicos. E no Irã, as novas sanções do governo Trump fizeram o desemprego e a inflação dispararem, além de causar uma recessão. O Fundo Monetário Internacional espera que o país, que cresceu 12% em 2016, deva sofrer uma contração de 6% em 2019.

Os comandantes militares mortos, Qasem Souleimani (à esq.) e Abu Mahdi al-Muhandis (à dir.). Ambos são considerados heróis em regiões da Síria e do Iraque por terem derrotado o Estado Islâmico. (Imagens: Wikimedia Commons).
 
No final do ano passado, já com o país sofrendo sob os efeitos econômicos das sanções, milhares de manifestantes tomaram as ruas do Irã, atacando prédios da administração pública e até exigindo a queda do regime dos aiatolás. Os EUA, obviamente, celebraram as manifestações e demostraram todo seu apoio pela mudança de regime. Porém, o movimento foi perdendo força e não chegou a ser uma ameaça real ao governo iraniano. Alguns chegaram a dizer que o assassinato de Soleimani também enfraqueceria o governo, mas o exato oposto aconteceu. Mais de um milhão de pessoas foram ao velório do Major-General, num claríssimo apoio a linha de atuação dele - ou seja, de combate aos EUA. Como é de praxe nessas situações, muitas bandeiras estadunidenses foram queimadas e se ouviram os cantos de "morte aos EUA".

Então, ficam as perguntas: será que esse ato de "autodefesa" deixou o mundo mais seguro? Ou será que esse assassinato é mais um motivo para milhares de iranianos, iraquianos e outros cidadãos do Oriente Médio se radicalizarem contra esse agressor que vem há décadas ocupando, bombardeando e desestabilizando a região? Será que o objetivo dos EUA é a paz, ou será que é deixar a região em chamas, instável e em eterno estado de guerra, para justificar sua própria presença militar lá?

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Para saber mais:

Sobre o golpe de 1953 que instaurou a ditadura sanguinária de Moahammad Reza Shah, apoiado pelos EUA: "Golpe de Estado x Revolução Popular".

Sobre a política de mudança de regime: "Mudanças de Regime 'do Bem'".

30/04/2019

Mudanças de Regime "do Bem"

O discurso da mudança de regime é muito bonito. Dizem que "estão ao lado do povo" do país em questão. Apontam as atrocidades do regime atual. Falam da "grave crise" na qual se encontra o país. Porém, quem apoia tais mudanças bruscas no poder executivo de um país estrangeiro está pensando seriamente nas consequências? Ao longo do tempo há inúmeros casos de tais mudanças. Aqui no Brasil passamos por uma na década de 60. No Iraque, aconteceu em 2003. Na Líbia em 2011. Na Ucrânia em 2014. Agora, há uma tentativa em curso na Venezuela.

A tal "mudança de regime", uma expressão traduzida do inglês "regime change", que por sua vez é um modo bem estadunidense, bem cínico, de se referir à um "golpe de estado", não é um processo limpo, tranquilo e racional. Um país que possui um governo central apoiado na força ou numa personalidade específica é um país muito frágil. A quebra desse governo, a descontinuidade do poder, produz uma reação em cadeia imprevisível.

No Iraque, por exemplo, Saddam Hussein estava há 24 anos no poder, num território com uma das cinco maiores reservas de petróleo do mundo. A administração Bush, na preparação para a invasão do Iraque, dizia que seria um serviço rápido, que em questão de meses Saddam seria derrubado e o Iraque se tornaria uma nova democracia. Na verdade, a invasão do Iraque se tornou uma ocupação, que chegou a ter 170 mil soldados quatro anos depois, em 2007, e hoje, em 2019, ainda tem cerca de 5 mil. O Estado Islâmico foi uma das consequências imprevistas da invasão. O grupo surgiu no Iraque e depois se espalhou por toda a região, e seus ataques terroristas já mataram em praticamente todos os continentes.

John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, declarou em 30 de abril de 2019,sobre a Venezuela: "Isto claramente não é um golpe". (Foto: flickr.com/gageskidmore)
 Na Líbia, Muammar Gaddafi, que estava no poder há mais de 30 anos, foi derrubado e brutalmente assassinado em outra campanha de "bombardeios pela democracia". O país possui uma das maiores reservas do mundo do melhor tipo de petróleo, fácil de extrair e com baixos níveis de enxofre, o que propiciou um dos maiores IDHs do continente africano. Após sua queda em 2011, o país mergulhou no caos. Até hoje, não há um governo central efetivo, inúmeros grupos terroristas passaram a utilizar o país como base, parte da infraestrutura foi bombardeada e vários bairros ainda estão em ruínas. Recentemente um general amigo dos EUA tentou tomar o poder resultando em mais derramamento de sangue.

Na Ucrânia, vizinha da Rússia, um governo amigável a Rússia foi derrubado num misto de golpe de estado com marchas e revoltas populares. O então Senador dos EUA John McCain se reuniu com os líderes da oposição, que incluía uma organização abertamente neonazista. A Assistente do Secretário de Estado, Victoria Nuland, foi gravada nomeando o futuro governo ucraniano. Depois disso, a Ucrânia mergulhou numa guerra na região de Donbass que gerou milhões de refugiados e mais de 10 mil mortos.

Na Venezuela, em 25 de janeiro deste ano, o presidente da Assembléia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente do país, após um telefonema a Mike Pence, Vice-Presidente dos EUA. Eles não perderam a "oportunidade de ouro" nem por um minuto. Convocaram Eliott Abrams, um velho conhecido de operações anti-comunistas (leia-se de sabotagem, tortura e extermínio) na América Central, para ser o "enviado especial" dos EUA a Venezuela. Isso gerou uma grande turbulência no país com as maiores reservas de petróleo da Terra e dividiu o mundo entre apoiadores de Guaidó, apoiadores de Maduro e alguns poucos "neutros". Hoje a situação se agravou, com Guaidó declarando que os militares estão ao seu lado e não mais ao lado de Maduro. Uma enxurrada de notícias, boatos, imagens e opiniões inundou a mídia. Mike Pence voltou a aparecer, tuitando em apoio a Guaidó. Bolsonaro deu um cheque em branco de R$224 milhões para o Ministério da Defesa "acolher venezuelanos", e por aí vai.

Mas o que acontece se, de fato, o governo Maduro cai? Será que os apoiadores de Maduro, que estão ao lado do governo há 20 anos, vão simplesmente aceitar? O que um governo Guaidó faria com eles? Aceitaria protestos nas ruas ou reprimiria? E os poderosos traficantes locais? Será que eles vão se sentir mais ou menos poderosos na ausência de um governo central? Será que a violência no país vai aumentar ou diminuir? E a economia, vai estabilizar rapidamente? São todas situações que os iraquianos, líbios e ucranianos vivenciaram, e os venezuelanos vão vivenciar. Não um bando de cheerleaders mal informados, bradando "viva o povo, viva a democracia, viva os EUA" a milhares de quilômetros de distância.

04/11/2018

Os Estados Unidos, a Venezuela e Bolsonaro

Há cerca de um século, os Estados Unidos da América consideram a América Central e a América do Sul como sua área de influência. As razões variaram ao longo dos anos. No início do século XX, era a ideologia do "Grande Porrete", cujo nome vem de um provérbio africano que o então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, gostava de repetir: "fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe". No berço da Guerra Fria, os anos 40 e 50, havia diversos ditadores simpáticos aos EUA, ou seja, anticomunistas. Os Somoza na Nicarágua, Fulgêncio Batista em Cuba, Trujillo na República Dominicana, Stroessner no Paraguai, Marcos Pérez Jiménez na Venezuela e por aí vai.

Em 1959 veio a Revolução Cubana, a menos de 300 quilômetros da costa dos EUA. Um grupo de guerrilheiros liderados por Fidel Castro, Raul Castro e Che Guevara derrubou o governo de Batista e se alinhou com a União Soviética. Isso fez com que a Central Intelligence Agency, a CIA, fizesse um forte investimento para derrubar Castro, culminando na tentativa fracassada de invasão na Baía dos Porcos, em 1961. Em 1963 o então presidente John F. Kennedy declarou que era necessário "usar todos os recursos para prevenir o estabelecimento de outra Cuba neste hemisfério". Se sucederam ditaduras no Brasil, na Argentina, no Uruguai, em Honduras e na Nicarágua, entre outros.

A política do "Grande Porrete". Foto: Wikimedia commons.

Em 2002, após Hugo Chávez nacionalizar a exploração do petróleo na Venezuela sob o controle da Petróleos de Venezuela S. A. (PDVSA), o país sofreu um golpe de estado. Um novo presidente, Pedro Carmona, foi instalado e rapidamente reconhecido como legítimo pelos EUA. No entanto, uma movimentação rápida do exército e da população resultou na destituição de Carmona e na volta de Chávez ao poder. Este golpe é o foco do incrível documentário "A Revolução Não Será Televisionada". Chávez ganhou sucessivas eleições até sua morte em 2013, quando seu vice, Nicolás Maduro, assumiu e se mantém na presidência até hoje. O país, apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo, vive uma gravíssima crise hiperinflacionária e de abastecimento.

O giro do Brasil

Nos anos dos governos Lula e Dilma, o Brasil foi aliado da Venezuela. Por causa da crise no nosso vizinho, esse apoio foi assunto durante a campanha para a Presidência do Brasil. Outro assunto recorrente entre os eleitores foi o nosso regime militar. Por um lado, o temor de um governo de esquerda causar aqui a mesma catástrofe que Maduro causou por lá. Ao mesmo tempo, a certeza de que o regime militar combateu duramente os comunistas, e, portanto, para prevenir que o Brasil "virasse uma Venezuela", era necessário eleger alguém da linhagem do regime militar e não da esquerda. Esse alguém foi Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, do Partido Social Liberal (PSL).

Inspirado em Donald Trump - um apresentador de TV de língua solta com uma forte presença nas redes sociais que se elegeu presidente dos EUA contra todas as probabilidades - o capitão conquistou o eleitorado com o discurso anticomunista e anticorrupção - uma corrupção ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), a principal força de esquerda no Brasil e o partido do seu oponente Fernando Haddad. Ganhou o segundo turno com 57 milhões de votos, a segunda maior votação da história do Brasil, atrás apenas daquela recebida por Lula, o líder encarcerado do PT, no segundo turno de 2006.


Num ato a favor de Bolsonaro, no domingo anterior à votação, o candidato fez um discurso inflamado contra a esquerda, dizendo que iria "varrer os marginais vermelhos" e que diversas figuras do PT, incluindo seu adversário no pleito, "iam apodrecer na cadeia". Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, no mesmo ato disse, em relação a Venezuela, que o Brasil iria "libertar nossos irmãos da fome e do socialismo", que "a melhor solução para a crise migratória que nós vivemos é a saída de Maduro do poder" e que "a gente vai dar uma lição nesse narcoditador". Ele também citou o então candidato a vice-presidência General Hamilton Mourão, que disse em sabatina à GloboNews que "a nossa próxima força de paz será na Venezuela". Durante a apuração dos votos, o deputado estava reunido com um grupo de oposição à Maduro, o Rumbo Libertad.

Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, falou em "opção militar" em agosto do ano passado, a respeito do nosso país vizinho. No início de setembro o New York Times fez uma matéria sobre as discussões entre oficiais dos EUA e comandantes militares da Venezuela sobre um golpe no país.  No final do mesmo mês, em reunião com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, Trump disse que iriam falar da Venezuela e que o país era um "desastre que precisa de uma limpeza". Na segunda-feira, dia 29, um dia após o segundo turno, uma matéria da Folha com uma fonte anônima do alto escalão do governo colombiano afirmou que a Colômbia apoiaria uma operação militar contra a Venezuela lançada por Trump ou Bolsonaro. O governo colombiano, por meio de uma declaração em vídeo, negou qualquer sugestão de intervenção militar, porém a Folha não se retratou e manteve a matéria no ar.  A Colômbia tem tratados militares com os EUA, faz manobras em conjunto com o exército estadunidense e é um forte aliado do país na região. No mesmo dia, Trump ligou para Bolsonaro e disse que teve uma boa conversa com o presidente eleito, e que os EUA irão trabalhar junto com o Brasil "no comércio, forças armadas e tudo mais".


Também no dia 29, o ex-diretor da CIA e atual secretário de Estado Mike Pompeo ligou para Bolsonaro e conversou sobre o compromisso com a democracia e os direitos humanos e sobre a cooperação na política externa, incluindo sobre a Venezuela. Em relação aos direitos humanos, vale lembrar que a CIA e o Departamento de Estado sabiam que o alto escalão do regime militar no Brasil, na década de 70, estava diretamente envolvido na execução ilegal de pessoas consideradas "subversivas", como revelou o pesquisador Matias Spektor em maio deste ano. Esses assassinatos, no entanto, não geraram comoção nos EUA e nem resultaram em sanções ou qualquer tipo de manifestação negativa pública, na época.

Finalmente, na sexta-feira, dia 2, o Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, fez elogios à eleição de Iván Duque, na Colômbia, e Jair Bolsonaro, no Brasil, atacou os governos de Cuba, Venezuela e Nicarágua, os chamando de "troika da tirania", e disse que os EUA vão impor sanções a eles. Apesar do nome de "conselheiro", Bolton é um dos quatro membros do National Security Council (Conselho de Segurança Nacional), a mais alta entidade de comando do governo federal dos EUA, que eu já descrevi em um texto anterior.

Por mais que uma operação militar brasileira contra a Venezuela pareça algo saído de um livro de ficção, essa não é a única opção na mesa. Além da pressão diplomática, o Brasil pode aceitar servir de base para forças de "Operações Especiais" dos militares estadunidenses, ou até para mercenários e clandestinos da CIA. Na preparação da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, já citada aqui, um dos países que serviu de base foi a Nicarágua do ditador Somoza. Na Síria, rebeldes foram treinados pelos EUA na Jordânia e na Turquia para tentar derrubar Bashar al-Assad. Os EUA tem uma "oportunidade de ouro" para tais operações com um governo tão amigável no Brasil. Será que vão aproveitá-la ou vão respeitar a soberania do nosso vizinho sul-americano?

29/10/2018

11 pontos sobre o futuro governo Bolsonaro

Este não é um texto de grandes previsões, está concentrado nos movimentos iniciais do governo e principalmente na relação do governo com a mídia e o público.

Ponto 1: Bolsonaro teve uma votação expressiva, de 57 milhões de votos, e tem uma vasta rede de apoiadores. Apesar das denúncias de utilização de "spam", ainda não provadas, ele possui uma verdadeira mídia alternativa concentrada em sua própria figura. Bolsonaro, do seu celular, em conjunto com seus seguidores mais famosos e seus correligionários, consegue falar diretamente com milhões de apoiadores em questão de minutos. O único jeito de saber o que ele está falando é também segui-lo, ler os tuítes e assistir as lives. Isso estabelece uma ponte de diálogo com seus eleitores; ao invés de citar uma manchete da "manipulada" grande mídia, é possível analisar diretamente o que ele diz. Ou seja, um ponto forte da comunicação dele também abre a possibilidade de criticá-lo se baseando em suas próprias palavras.

Donald Trump na primeira coletiva após sua eleição. Foto: reprodução.

Ponto 2: Ele vem há bastante tempo se espelhando em Donald Trump. Por enquanto, isso ocorreu na campanha, mas deve continuar durante a presidência. Isso significa que podemos esperar que anúncios importantes de rumos do governo, nomeações e comentários sobre crises e eventos serão feitos via redes sociais.

Ponto 3: A grande mídia já está um pouco perdida. Assim como na esteira da eleição de Trump, estão clamando por um Bolsonaro com "modos de Presidente". Isso não deve acontecer. Ele não vai mudar de postura nem de discurso. É essa postura e esse discurso que o elegeu. Mudar seria trair toda a sua base de eleitores.

Ponto 4: Qualquer mínimo aceno de que ele ficou mais ameno, qualquer declaração mais pomposa que destoe do Bolsonaro que estamos acostumados vai ser "comemorada" como um "ponto de inflexão". Isso é uma ilusão. Com o Trump ainda tem gente esperando essa mudança, quase dois anos depois da eleição.

Bolsonaro falando em uma Live no Facebook para o ato na Paulista, 21/10/2018. Foto: reprodução.


Ponto 5: Ele vai tentar, a todo momento, desacreditar a grande mídia. Ele não vai seguir os ritos esperados. Por outro lado, nenhum presidente pode ficar sem comunicação em massa. Então, assim como Trump escolheu a Fox News para dar as caras para o público, Bolsonaro provavelmente escolherá a Rede Record. Além da entrevista durante o debate no primeiro turno, ele deu a primeira entrevista como presidente para esse canal, algo que tradicionalmente era feito pela Rede Globo. É pra ficar de olho neles e no portal R7. No rádio, a rede Jovem Pan foi a mais simpática a sua candidatura.


Ponto 6: Nessa mesma linha, ele deve valorizar algumas plataformas e personalidades online, como o portal Terça Livre, que foi recebido para uma entrevista exclusiva a poucos dias da eleição, ou O Antagonista, que tem entre seus jornalistas o Felipe Moura, que já foi retuitado várias vezes por Bolsonaro, entre outros. Os próprios congressistas eleitos pelo PSL tem um perfil ativo nas redes e podem ser usados para externar ideias do governo. Aí entram Alexandre Frota, Joice Hasselmann, seus filhos Carlos, Eduardo e Flávio e tantos outros.

Ponto 7: Ao mesmo tempo, não é de se esperar uma gestão transparente. Ele é o candidato que desde o início da eleição não queria fazer debates e que após sofrer o atentado, proibiu seus assessores de falar com o público. Ultimamente, só fala com jornalistas amigáveis.

Ponto 8: Nem tudo no seu governo vai ser ruim ou um desastre. Mas a grande mídia, por ressentimento ou ideologia, tentará esconder qualquer avanço durante o governo Bolsonaro. Pode ter índices que melhorem, como por exemplo a taxa de desemprego. Se concentrar apenas no ruim pode aumentar a divisão e a polarização e fechar portas para o diálogo com seus eleitores.

Ponto 9: Já houve vários casos de apoiadores de Bolsonaro ameaçando ou até agredindo pessoas que eram contra o então candidato. Desde o início Bolsonaro disse que não tinha "controle" sobre quem "usava uma camiseta sua e cometia um crime". Há indícios de casos forjados, mas é bom ficar de olho. Se vir algo, registre.

Ponto 10: O gabinete do governo provavelmente vai trazer figuras do setor privado para os ministérios, secretarias e estatais. Os tais "técnicos" devem ser pessoas relativamente desconhecidas, já que não são quadros políticos. Porém, podem ter grandes conflitos de interesse com seus próprios negócios. Um exemplo é Stavros Xanthopoylos, consultor do ramo da educação a distância cotado para o Ministério da Educação. Outro é o próprio Paulo Guedes, cotado para a Fazenda, cujo banco BTG Pactual está envolvido no esquema ilegal de securitização da dívida pública.

Ponto 11: O governo Temer não conseguiu passar a reforma da Previdência, por exemplo, por conta da baixíssima popularidade, escândalos de corrupção e de um Congresso engessado. O partido de Bolsonaro foi o mais fiel ao governo Temer e já sinalizaram que parte da equipe do Temer vai continuar. O novo governo, por causa do respaldo popular nas urnas, da boa bancada no Congresso e da aparente disposição pra botar a polícia na rua pra reprimir manifestantes, virá como um trator para passar medidas duras e impopulares, numa continuação do pós-impeachment.

10/10/2018

Ataques, ameaças, justiceiros e mílicias: Ligando os pontos do Bolsonarismo

Menos de 24 horas após o encerramento do 1º turno das eleições de 2018, na madrugada de segunda-feira, dia 8, o mestre de capoeira conhecido como Moa do Katendê foi assassinado a facadas num bar em Salvador, na Bahia. O criminoso, um barbeiro de 36 anos, havia ingerido bebidas alcoólicas desde a manhã de domingo e chegou ao bar às 23h, segundo a polícia. Ele confessou que o motivo do crime foi político. Ele e Moa discutiram por causa da eleição. Ele apoiava o candidato Jair Bolsonaro (PSL) e Moa, Fernando Haddad (PT).

Esse não é o primeiro e está longe de ser o último caso de violência associada aos seguidores do candidato do PSL. Os casos se acumulam. Antes da eleição, eles resolveram atacar, nas redes, a jornalista que escreveu uma matéria crítica a ele. Porém, acabaram atacando outra jornalista, com o mesmo nome, que teve seus dados pessoais divulgados na Internet e sofreu diversas ameaças. No sábado antes da eleição, Julyanna Barbosa, mulher trans, ex-vocalista do grupo Furacão 2000, foi atacada com uma barra de ferro nas ruas do Rio de Janeiro. Os agressores disseram, antes de atacá-la, que "Bolsonaro vai ganhar pra acabar com os veados. Essa gente lixo tem que morrer". No domingo, um jornalista que usava uma camiseta com a imagem do ex-Presidente Lula foi atropelado por um motorista que depois ameaçou atirar, pois tinha uma arma. No perfil do motorista no Facebook, diversas postagens de ódio ao Partido dos Trabalhadores.

Ameaça que eu recebi no Facebook. Preciso dizer que candidato ele defendia?
Numa carreata pró-Bolsonaro na cidade de Muniz Ferreira, interior da Bahia, um cachorro foi morto a tiros por um dos manifestantes. Segundo a família, quando o cachorro, chamado de Marley, começou a latir para a carreata, o homem desceu do carro e disparou no pé do cachorro. Marley correu e o homem disparou mais duas vezes e o matou. Na segunda, uma jovem foi abordada por três homens e teve uma suástica cravada na barriga com um canivete por estar usando uma camiseta com os dizeres #EleNão. Segundo o delegado, porém, os agressores desenharam um "símbolo budista". No mesmo dia, Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março deste ano, sofreu agressões verbais por homens usando a camiseta do candidato. Ela carregava sua filha de dois anos no colo. Ontem, terça-feira, um funcionário da UFPR foi agredido aos gritos de "aqui é Bolsonaro!" por um grupo de torcedores do Curitiba. Ele usava um boné do MST. Além disso, em duas ocasiões, torcedores de futebol foram gravados gritando "o Bolsonaro vai matar veado". Pelo WhatsApp e Facebook, as denúncias desses ataques estão se multiplicando.


Os ataques, infelizmente, não surpreendem. O candidato do PSL tem postura agressiva e seus apoiadores o imitam. Bolsonaro, por exemplo, deixou sua posição em relação aos homossexuais bem clara ao longo dos anos. Ele já declarou que "agora, homossexual, ninguém gosta, a gente suporta", que se um filho "começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um coro e muda de comportamento", que "não gostaria de ter um filho homossexual" e que "prefiro que meu filho morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Além disso já disse que "as minorias tem que se calar, se curvar a maioria, acabou". Em outubro, em um ato de campanha em Rio Branco, Acre, berrou em cima de um caminhão de som, segurando um tripé de câmera como se fosse uma arma, que "vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre". E foi ovacionado.

Cena do comício em Rio Branco. (Foto: reprodução).



Mesmo depois de uma enxurrada de críticas, disse que não pode se "violentar e virar o 'Jairzinho paz e amor'". Questionado por um repórter sobre como ele via esses atos de violência "em nome ou em apoio ao senhor", Bolsonaro entrou na defensiva, e primeiro disse que a vítima foi ele, que ele que levou a facada. Depois, disse que "um cara lá que tem uma camisa minha comete um excesso, que que eu tenho a ver com isso?". Continuou: "eu lamento, peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam". Terminou a resposta dizendo que "a violência vem do outro lado, a intolerância vem do outro lado" e minimizou a onda de violência falando que "tá feia a disputa, mas são casos isolados que a gente lamenta e espera que não ocorra".



A grande proposta de segurança pública do candidato é o armamento da população. Segundo ele, "o cidadão armado é a primeira linha de defesa de um país". Essa sua mentalidade que insinua a "justiça com as próprias mãos", na minha opinião, é exatamente o que está dando combustível para esses ataques. Cada um deve se defender contra aquilo que parece o ameaçar. Não importa se é uma pessoa LGBT, um "esquerdista" ou um animal. O desprezo do candidato pelos direitos humanos é outro fator. Afinal, já que não há direitos humanos universais, caberia a cada um decidir quais humanos possuem direitos e quais não possuem.

Por fim, na mesma linha de pensamento de que há espaço para a justiça com as próprias mãos, o candidato, na rádio Jovem Pan, uma vez declarou que "naquela região onde a milícia é paga, não tem violência" e defendeu as milícias em outras ocasiões. Seu filho, em 2007, falava até na legalização das milícias. O candidato voltou atrás depois, mas sem condenar as milícias como um todo - para ele, elas "acabaram se desvirtuando". Ele também foi o único candidato a presidência que não deu declarações imediatamente após o assassinato de Marielle Franco, uma parlamentar do PSOL com atuação incisiva na área de direitos humanos e que participou da CPI das Milícias. Preferiu se calar "para não politizar o assunto", porém seus filhos não tiveram problemas em fazê-lo. Os principais suspeitos do crime são milicianos.

Se ainda como candidato, já há grupos de apoiadores que se sentem a vontade para intimidar, ameaçar e agredir pessoas nas ruas, o que acontecerá se ele for eleito? Vamos lembrar, aqui neste artigo mostrei que o ódio dos apoiadores pode se dirigir a uma pessoa LGBT, a um simpatizante do PT, a uma mulher com sua filha e até a um cachorro. Não tem muito critério. Será que veremos grupos de mascarados - ou até sem máscaras - andando nas ruas com as camisetas do candidato, espancando até quem "olhar torto" pra eles?
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