10.3.16

"Trégua na Síria" - Coluna de 09/03/2016

Trégua na Síria

O “cessar de hostilidades” aprovado pelo conselho de segurança da ONU na sexta-feira, 26 de fevereiro, parece ter surtido algum efeito. Mas quem, realmente, está ganhando com esse cessar- fogo? Será que esse cessar-fogo não tem mais de uma face?

Por um lado, o acordo traz a possibilidade de algum alívio para os cidadãos sírios pegos no fogo cruzado de uma guerra indireta entre Síria, Irã e Rússia contra Arábia Saudita, Turquia, EUA e outros. Mas por outro, serve como um breque para um conflito que agora está tendendo para uma vitória do Exército Sírio. Com o apoio da força militar russa – aviões modernos, mísseis de longo alcance e capacidade de observação por satélites – o governo de Bashar Al Assad foi capaz de se recolocar na ofensiva contra os grupos que querem derrubá-lo. E os grupos que querem derrubá-lo são apoiados pelos países que mencionei acima.

Diversos representantes do governo dos EUA, de uma forma ou outra, alertaram que a Arábia Saudita é a principal financiadora do terrorismo global, entre eles Bob Graham, o líder da investigação sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, e Stuart Levey, subsecretário do Tesouro Para Inteligência Financeira e de Terrorismo. O ex-embaixador dos EUA na Turquia, Francis Riccardone, disse ementrevista ao jornal britânico The Telegraph que o governo turco cooperou com a organização terrorista Jabhat Al Nusra – uma descendente direta da Al Qaeda – visando a desestabilização do governo de Assad, enquanto o governo dos EUA olhava para o outro lado. Praticamente todos os grupos terroristas que atuam na Síria foram criados após 2011. As manifestações populares parecem ter sido apenas uma cortina de fumaça para ocultar a realidade: que grupos vindos de fora da Síria entraram no país e passaram a atacar o governo de Assad. E mesmo assim, ainda hoje, os EUA insistem na narrativa de que há rebeldes “moderados”, que querem apenas mais democracia na Síria.

Vejam a posição da representante dos EUA no conselho de segurança, Samantha Power. Na reunião que aprovou o “cessar de hostilidades”, ela foi a primeira a falar. Com muita seriedade, falou sobre o sofrimento de mulheres e crianças sírias. Falou que o conflito é um dos mais brutais em uma geração. Falou da necessidade de compromisso real das partes com o cessar-fogo… E então passou a criticar os russos e sírios, e exigir a saída de Bashar Al Assad. Chegou ao ponto de acusar os russos de bombardearem alvos totalmente civis no subúrbio de Damasco. O enviado da Síria ao Conselho, Bashar Ja’afari, foi o último a falar, e prontamente rebateu tal acusação. Na realidade, tal subúrbio teria elementos da Jabhat al Nusra, e seguiu numa explicação de como lideranças da Al Qaeda formaram essa nova organização. Também ressaltou o fato de que Power simplesmente não mencionou o nome da Al Qaeda. Talvez seja vergonha, já que os EUA estão há mais de 15 anos lutando contra essa organização e não conseguiram eliminá-la. Pelo contrário, sua atuação só expandiu desde 2001.

No fundo, parece que a decisão dos EUA de apoiar os mujahidin (jihadistas) lá na década de 80, no Afeganistão, contra um governo comunista que estava se instaurando no país, simplesmente se tornou uma peça fundamental da sua política externa. Apoiar o extremismo islâmico, quando conveniente, passou a fazer parte do arsenal de medidas para estender o controle do império “excepcional” sobre o mundo. E assim chegam nessa posição esquizofrênica de, por um lado, estabelecer sistemas de vigilância orwellianos que passam por cima de direitos constitucionais, bombardear, torturar e matar em nome do antiterrorismo, e por outro, apoiar, direta ou indiretamente, inúmeros grupos terroristas!

Link do original: http://www.horadopovo.com.br/2016/03Mar/3421-09-03-2016/P7/pag7d.htm


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