3.5.15

Comentário: livro "Quando o Google encontrou o Wikileaks", de Julian Assange


Olá, hoje alguns comentários do novo livro do Julian Assange, Quando o Google Encontrou o WikiLeaks.

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    Devo começar dizendo que sou fã do Julian Assange.

    O livro foi publicado pela Boitempo, que vem publicando livros sobre o Wikileaks/Julian Assange há um tempo. Li o outro livro dele, Cypherpunks, também publicado pela Boitempo, que é uma conversação entre ele e três outros hackers, sobre os mais diversos assuntos.  Também devo dizer que acho que o hacker é um ativista essencial. O hacker pode ter acesso à segredos; pode causar imenso desconforto para grandes corporações; pode incomodar governos. Além disso, o hacker é simplesmente um explorador. Não está interessado em destruir, roubar, "derrubar sistemas" ou o que normalmente é atribuído à ele. É simplesmente um curioso, um explorador, um desbravador, inovador, que usa a tecnologia a seu favor.

    Não vou fazer um grande apanhado de quem é Julian Assange e porque sou fã dele. Talvez num post futuro. Para este texto, só preciso dizer que Assange é um ativista incansável, focado, criativo, inovador - enfim, extraordinário. E também escreve bem, o que ajuda bastante. Bom, vamos ao livro.

    O livro é resultado de uma conversa entre:
   Resumidamente, Assange foi contatado por Schmidt e Cohen para ter uma conversa. Cohen e Schmidt iam escrever um livro e estavam fazendo entrevistas com diversos visionários do mundo da tecnologia, queriam que Assange participasse, e ele topou. A conversa se passou em Norfolk, Inglaterra, em 2011, quando Assange estava sob prisão domiciliar.

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    O primeiro capítulo de Quando o Google... é a descrição de Assange para o contexto desse convite, que foi feito em 2011. O que ele descreve é o que ele descobriu após ter feito a entrevista. Ele descobriu que seus 4 interlocutores estavam ligados ao Departamento de Estado e ao establishment estadunidense, e deduziu que um dos objetivos da entrevista, portanto, era descobrir informações sobre o Wikileaks para ajudar o governo a controlá-lo. Esse capítulo é especialmente bom; são 20 páginas escritas, e 11 páginas de notas e fontes. Além de falar do caso da entrevista, Assange também revela uma aguçada visão da política externa dos EUA e de relações internacionais em geral, e como ela está atrelada, muito mais que imaginam, às empresas de tecnologia e mídia social. Do livro (pág. 35):
Comecei a ver Schmidt como um brilhante bilionário californiano da área de tecnologia, mas politicamente inapto, que era explorado pelo mesmo pessoal da política externa dos Estados Unidos que ele procurou para servir de intérprete entre o Google e o governo em Washngton - um exemplo do problema do principal agente entre a Costa Oeste [onde estão as empresas de tecnologia] e a Costa Leste [onde está Washington, D.C.] dos Estados Unidos.
Eu estava errado. (...)
Em 2008, Schmidt assumiu a presidência do conselho administrativo [da New America Foundation, um think tank de Washington]. (...)
O envolvimento de Schmidt com a New America Foundation o coloca firmemente no centro do establishment de Washington. Outros membros do conselho administrativo da fundação - dos quais sete também são membros do Council on Foreign Relations - são Francis Fukuyama, um dos mentores do movimento neoconservador; Rita Hauser, que serviu no Conselho Consultivo de Inteligência da Presidência, tanto no governo de Bush quanto no de Obama; Jonathan Soros, filho de George Soros; Walter Russell Mead, estrategista de segurança e editor da American Interest; Gelene Gayle, que faz parte do conselho administrativo da Coca-Cola e da Colgate-Palmolive, da Fundação Rockefeller, (...) e Daniel Yergin, geoestrategista da indústria petrolífera (...). 

    O que Assange fez nesses parágrafos foi uma análise de rede. Ele demonstrou que Schmidt, longe de estar ligado com algum tipo de vanguarda inovadora quando o assunto é política, está "firmemente no centro do establishment de Washington", que, no caso do último século, gira em torno do Council on Foreign Relations. Esse think tank vai ser assunto de um post à parte, mas por enquanto, vale dizer que os Presidentes Herbert Hoover, Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, George Bush (pai) e Bill Clinton já passaram por lá (assim como inúmeros membros de seus gabinetes - Secretários de Defesa, de Estado, Chefes de Gabinete, etc.).
    Ou seja, Schmidt, ao invés de se rebelar - como seria esperado de um filho do Silicon Valley - foi atrás daqueles centros de poder que sempre foram a ponta de lança do imperialismo estadunidense. E Assange, ingenuamente, tinha achado que esse não era o caso.
    Essa introdução é matadora. Assange é muito honesto ao demonstrar sua própria ingenuidade, mesmo estando no "olho do furacão" de uma enorme controvérsia internacional. Ele sabia do papel revolucionário que o Wikileaks tinha, principalmente no que diz respeito à seu confronto com os estados nacionais, ditatoriais ou não, que buscavam gerir a informação de maneira censitária. Ao mesmo tempo, não tentou imaginar que tal convite de Schmidt e Cohen poderia ter segundas intenções. Isso fica ainda mais claro durante a parte principal do livro, que é o diálogo entre eles.

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    No começo do diálogo propriamente dito, me pareceu que Julian Assange tentou impressionar Schmidt. Rapidamente, revelou aos seus interlocutores detalhes técnicos da operação Wikileaks - e por consequência, para o Departamento de Estado, e também para sabe-se lá qual outra agência. Isso talvez não sido um grande problema, já que o WikiLeaks continuou funcionando, porém seus vazamentos parecem ter diminuído em impacto após 2011.
    Bom, deixando de lado um pouco a trama de espionagem que permeia o livro, há discussões ótimas entre Assange e os demais. Eles, é claro, estão plugados no que há de mais moderno em tecnologia da informação, então é um livro muito útil para conhecer novas tecnologias - eles conversam sobre Torrent, Bitcoin, jornalismo online, criptografia. Uma discussão que achei bastante relevante para o blog foi sobre o que Assange chamou de "jornalismo científico" (pág. 92):

Julian Assange: (...) A situação da grande imprensa, hoje, é tão terrível que eu não acho que ela tenha conserto. Não acho que ela seja possível. Acho que ela tem de ser eliminada e substituída por uma coisa melhor.
Scott Malcomson: E parece que isso está acontecendo!
JA: É. E eu defendo a ideia de um jornalismo científico - as coisas devem ser citadas com precisão, com a fonte original, e o maior número possível de informações deve ser de domínio público, para ficar disponível para as pessoas, da mesma forma como acontece na ciência, para você poder testar e ver se os dados experimentais de fato levam àquela conclusão. Caso contrário, provavelmente o jornalista só inventou a notícia. Na verdade, é isso que acontece: as pessoas simplesmente inventam as coisas. Inventam a ponto de a gente entrar em guerra. A maioria das guerras dos século XX começou como mentiras amplificadas e espalhadas pela grande imprensa. Você pode dizer: "Bom, isso é terrível; é terrível que todas essas guerras comecem com mentiras". E eu digo que não, que isso é uma oportunidade tremenda, porque significa que as populações não gostam de guerra e só entraram nela porque foram enganadas, porque mentiram para elas. E isso significa que, se souberem a verdade, elas podem fazer a paz. Isso é motivo de grande esperança [grifo meu]. (...)
O que eu gostaria de ver no jornalismo era a introdução da reputação, como acontece na ciência, que pergunta: "Onde estão os dados que comprovam essa sua alegação?". Se você não apresenta seus dados, por que diabos eu deveria levar isso a sério? Agora que podemos publicar na Internet, agora que temos espaço físico para todos os dados, eles devem ser apresentados. Os jornais não têm espaço físico para a fonte primária; agora que temos espaço para a fonte primária, deveríamos criar uma norma para incluir esses dados. As pessoas podem se desviar dessa norma, mas, se elas se desviarem e não se derem ao trabalho de apresentar os dados da fonte primário, por que deveríamos prestar atenção no que elas escrevem? Elas não estão tratando o leitor com respeito.
    Recentemente estava discutindo com colegas sobre a difícil pergunta de "o que fazer?" frente ao estado de vigilância e a esse sentimento generalizado de impotência frente à grande imprensa, à política, às corporações, enfim, ao "sistema" em geral. E um dos pontos de vista que eu sempre tomo é esse que Assange descreveu. Da minha posição, o que eu posso fazer é dar informações e dar fontes. O que cada um vai tirar dessas informações e dessas fontes fica a cargo do indivíduo. É o oposto de uma mídia que está defendendo um interesse específico. Essa mídia não pode dar fontes originais, ela só pode citar parcialmente o que interessa a ela. Ela não pode deixar um entrevistado falar livremente; tem que editar para omitir o que o entrevistado falou que não a agradou. Em geral, essa mídia está atrás de audiência, então ela vende um produto "pronto", uma informação que não precisa ser digerida - você lê ou ouve, e sai repetindo exatamente o que leu ou ouviu.
    É claro que neste blog, eu passo as informações que me interessam. Eu já tenho minhas teorias e minhas conclusões sobre os diversos assuntos que escrevo, mas procuro transmitir as informações como eu as recebi: de início, como informações "cruas", que eu tive que interpretar e conectar por meio dos meus estudos. Por isso estou fazendo tantos posts "genéricos", simplesmente expondo questões estruturais que ajudam a entender o contexto atual em geral. Nesse sentido busco "tratar o leitor com respeito", ou seja, citar extensivamente de onde tirei as informações e deixar aberto o canal para ser questionado com relação à elas (qualquer um pode comentar no blog anonimamente!).
    Sobre o livro, não tenho muito mais a dizer; só que recomendo sua leitura, que é muito pertinente para o momento em que vivemos.

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    Para o próximo post, vou escrever sobre a NSA (National Security Agency). Estou terminando de ler The Puzzle Palace: A Report on America's Most Secret Agency (O Palácio do Quebra-Cabeça: Um Relatório sobre a Agência Mais Secreta da América, sem tradução em português), que é o primeiro livro exclusivamente sobre a NSA. Saiu em 1982, quase 30 anos após a criação da agência. O autor, James Bamford, é considerado um dos maiores experts sobre a NSA. Por isso, vou introduzir o assunto NSA com um comentário sobre esse livro...

    Até!

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