09/06/2018

Uma espiada no mecanismo do Governo Invisível

Estudando as agências de inteligência e o chamado "Governo Invisível", aprendi que há dois tipos de vazamentos de informações confidenciais:

1. As informações embaraçosas que o Governo Invisível morre de medo que vazem.

2. As informações cuidadosamente selecionadas que o Governo Invisível quer que vazem.

Na primeira categoria, temos os casos de Daniel Ellsberg, Ed Snowden, Thomas Drake e outros. Nestes casos, a informação vazada diz respeito a graves crimes ou operações inconstitucionais que o governo está escondendo do público. Os indivíduos responsáveis por vazar essas informações são massacrados pelo sistema de justiça e pelos políticos. Em alguns casos, o funcionário se arrisca para transmitir a informação para um jornalista, e o jornalista por sua vez, trai a fonte e vai direto para a agência avisar que houve um vazamento.

Na segunda categoria, estão os vazamentos que as próprias agências de inteligência fazem, com objetivos políticos. Neste caso, elas cultivam relacionamentos com alguns jornalistas (em geral em Washington, DC), e dão informações privilegiadas - e secretas - que eles querem estampadas nas capas dos jornais. Esses relacionamentos são o "mercado dos segredos" descrito por James Risen, um veterano com 30 anos de jornalismo e vencedor de um Pulitzer. Em troca, quando esses jornalistas querem publicar algo visto como danoso, as agências intervém e bloqueiam as matérias. Como mágicos, revelam o que está na mão direita e distraem o público enquanto a mão esquerda executa todo tipo de operação ilegal e anti-ética. Com isso, eles controlam o que o público sabe e a narrativa da imprensa.

James Wolfe numa audiência no Senado em 1996. Fonte: C-SPAN.
Quinta-feira, 7 de junho, um dos "vendedores" do mercado de segredos foi preso [correção: foi detido, interrogado e liberado], acusado de vazar informações para uma jornalista (com quem também teve um relacionamento amoroso). Ele é James Wolfe, o ex-diretor de segurança do poderoso Comitê de Inteligência do Senado dos EUA. O vazamento em questão ocorreu em algum ponto dos últimos 3 anos, porém ele deteve esse cargo por 29 anos. Será que ele passou 26 anos no cargo, e só resolveu vazar informações nos últimos 3 anos, sem nenhuma recompensa aparente? Na minha opinião, é óbvio que não. Uma das razões para ele se manter tanto tempo no cargo deve ter sido justamente sua habilidade de controlar o fluxo de informações sigilosas - revelando as coisas certas enquanto defendia a todo custo os segredos explosivos. 

Ele um típico membro poderoso do Governo Invisível - até hoje, seu nome era praticamente desconhecido, mas há quase três décadas ele exercia seu poder. Ou seja, entraram e saíram cinco Presidentes sem que seu poder fosse abalado. Ele fez parte dessa burocracia permanente ligada às agências de inteligência que acabam moldando a política dos governos independentemente da filiação política ou da plataforma dos membros do Executivo e Legislativo eleitos pelo público.

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