9.12.16

Pelo Mundo Nº 8

A Presidência Imperial

Estou relendo o livro “Bush em Guerra”, de Bob Woodward (jornalista do Washington Post que ficou conhecido pelas reportagens do escândalo Watergate). O livro é uma janela para o funcionamento do National Security Council, o Conselho de Segurança Nacional, uma entidade do poder executivo dos EUA que eu considero importantíssima, e pouco se fala dela. É o epicentro do poder imperial dos EUA.

As reuniões do NSC fazem parte da rotina diária do Presidente; as melhores informações obtidas pelas agências de inteligência – interceptações telefônicas de outros presidentes e líderes de estado, informações sobre golpes de estado em gestação, informações de satélites secretos – convergem para o NSC. O NSC reúne o Presidente, o Vice-Presidente, o Secretário de Defesa e o Secretário de Estado. Outros secretários, o diretor de Inteligência Nacional, os diretores da CIA, da NSA, também podem participar. As discussões do NSC embasam as National Security Policy Directives, NSPDs, ordens do Presidente que orientam tudo relacionado a segurança nacional. Metade das ordens da presidência de George W. Bush ainda são secretas.

Woodward descreve as reuniões diárias após os ataques de 11 de setembro, com detalhes dos debates entre os membros do NSC da época: Bush, Cheney, Rumsfeld, Powell, Wolfowitz, Tenet e outros. Esses debates resultaram nos planos para a guerra contra o Afeganistão. Um dos pontos centrais da guerra foi a parte clandestina. Um grupo de agentes da CIA de codinome “Jawbreaker” (Quebra-queixo) foi enviado ao Afeganistão, com ordens de reestabelecer contato com a Aliança do Norte, um grupo militar de afegãos que haviam sido financiados pelos EUA durante a primeira guerra do Afeganistão nos anos 80. O objetivo era utilizá-los contra o Talibã. Mas não era só isso. Cofer Black, o diretor de antiterrorismo da CIA, disse ao líder do grupo, Gary, que havia mais uma missão. O presidente havia assinado uma nova ordem e “as luvas caíram”. “Pegue o bin Laden, encontre-o. Eu quero sua cabeça numa caixa,’ instruiu Black. ‘Você está falando sério?’ perguntou Gary. ‘Absolutamente,’ disse Black. A nova autoridade era clara. Sim, disse ele, ele queria a cabeça de bin Laden.”

Até 1976, não havia uma legislação específica que proibisse as agências de inteligência de assassinarem indivíduos com o objetivo de influenciar a política de outro país. Nesse ano, após as investigações de uma CPI para investigar abusos das agências de inteligência – o Church Committee – que revelou diversas operações da CIA para subverter a ordem política de países como Congo, República Dominicana, Chile, Cuba e outros, o presidente Gerald Ford assinou a Ordem Executiva 11905, que proibiu o “assassinato político”. É por isso que Gary ficou surpreso com as palavras de Cofer Black em 19 de setembro de 2001. Uma política de 25 anos havia sido descartada por George W. Bush – secretamente, após uma semana de discussões também secretas. Quinze anos depois, o texto da ordem ainda não é público.

O próximo presidente, Barack Obama, continuou as guerras começadas por Bush. E introduziu uma nova modalidade de assassinato, o assassinato via drone. Em um artigo no New York Times em maio de 2012, foi revelado que Obama preside uma reunião semanal na qual ele pessoalmente autoriza bombardeios para matar “militantes terroristas”. Esse comitê é juiz, júri e executor. E é essa presidência que Trump vai herdar...

(Coluna publicada na página 7 da edição 3500 do jornal Hora do Povo)

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25.11.16

Pelo Mundo Nº 7

Para onde vai a máquina de guerra imperial?


Donald Trump, um candidato rejeitado pelo establishment, rejeitado até pelo próprio Partido Republicano – que não deu um centavo para sua campanha – acabou eleito presidente dos EUA. Trump é o primeiro presidente dos EUA que não é um político. Ele nunca foi funcionário público, nem foi eleito para nenhum cargo, antes de se tornar o político mais poderoso do mundo. Portanto, não existe um histórico de suas posições políticas – apenas declarações de um empresário, que no final das contas tem pouco impacto. Então, ao redor do mundo todos estão se perguntando: como vai ser a presidência Trump?

Aqui vou focar na política externa. Durante a campanha, Trump tomou uma linha praticamente “isolacionista”. O seu discurso de colocar a “América em primeiro lugar”, rechaçar as invasões ao Iraque e o bombardeio na Líbia, dizer que os EUA deve parar de armar os rebeldes da Síria e se aproximar da Rússia para encontrar uma solução conjunta para a guerra civil de lá se opôs totalmente a Hillary, que conquistou o apoio dos ideólogos da guerra que povoam Washington, D.C., inclusive aqueles que sempre se alinharam com o Partido Republicano. A única posição esperada de um candidato Republicano tomada por Trump foi uma linha dura contra o Irã. Bill Kristol, editor da revista conservadora Weekly Standard, e um dos porta-vozes dos “neoconservadores” que dominaram a administração de George W. Bush, lutou contra a nomeação de Trump como candidato Republicano, inclusive fazendo uma tentativa desastrada de nomear um candidato próprio e no final das contas, apoiando a Democrata Hillary. Trump, por sua vez, chamou Kristol de “um perdedor que quer bombardear todo mundo”.

O presidente-eleito Trump, porém, parece estar se afastando do “isolacionismo”. Já durante a campanha, discretamente chamou os neoconservadores James Woolsey e John Bolton, que advogam por uma linha duríssima contra o Irã, para serem seus conselheiros de política externa. Até agora, nenhum deles foi nomeado para seu gabinete, mas o escolhido para diretor da CIA, Mike Pompeo, tem posições que o Partido (Invisível) da Guerra aprova – contra o acordo com o Irã, a favor de vigilância em massa e de tortura, etc. O diretor da CIA não possui muita autonomia, já que sua autoridade e suas diretrizes emanam diretamente da presidência. Pode ser que Trump queira agradar o Partido da Guerra com esse nome, mas pensa em manter a CIA em rédeas curtas quando a bola começar a rolar de verdade.

Outro nome importante é o de Mike Flynn, que será o Conselheiro de Segurança Nacional. Flynn foi diretor da DIA, a agência de inteligência das Forças Armadas dos EUA, o equivalente militar da CIA. Ele fez declarações pesadas sobre o Islã, o comparando a um “câncer”. Será que ele irá prescrever uma quimioterapia em forma de bombas?

A posição de Secretário de Estado também está no ar e praticamente todos os nomes são de pessoas que acreditam no “excepcionalismo” estadunidense. Um deles é o próprio John Bolton, mas o ex-prefeito de Nova Iorque Rudolph Giuliani, que também considera o Irã um estado quase terrorista, também está no páreo. A consistência aqui é que nenhuma das pessoas que estão próximas a Trump querem estender a mão para o xiita Irã. Se isso quer dizer que os EUA continuarão alinhados com os sunitas da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, e por aí vai, não espere mudanças na situação do Oriente Médio. Mas Trump, ambíguo como é, também quer se aproximar da Rússia, aliada do Irã. Aguardemos cenas dos próximos capítulos...

twitter.com/caiorearte2

23.3.16

Desmistificando Hillary

Mais um dia de primárias nos EUA, com resultados mistos. No Arizona, deu Clinton e Trump. No Idaho, os democratas votaram por Sanders (os republicanos decidiram por Ted Cruz duas semanas atrás). No Utah, Sanders com quase 80% dos votos, e Ted Cruz ganhou do lado republicano.

Com a saída de Marco Rubio do páreo, os republicanos podem escolher entre Donald Trump, Ted Cruz e John Kasich. Kasich parece estar mantendo sua candidatura simplesmente para dispersar os votos dos republicanos e assim evitar que Trump consiga uma maioria definitiva. 

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Eu gosto de fazer o advogado do diabo em relação a Trump. A principal razão é a seguinte: se Trump tem posições radicais, fascistas, como dizem muitos, o que dizer de Hillary Clinton?

A princípio, a pergunta pode soar absurda, afinal ela se declara progressista, e sua imagem é de uma ex-ativista dos direitos civis, uma feminista, uma ex-Primeira Dama que traçou uma forte carreira na política por conta própria. Mas quais são suas posições, e a que interesses sua presidência serviria?

Como descrevi no meu post anterior, uma análise mais detida nos mostra uma outra Hillary. Durante uma entrevista no dia 20 de outubro de 2011, quando ainda era Secretária de Estado, ela recebeu a notícia que Muammar al-Gaddafi havia sido morto. Rindo, disse "nós viemos, nós vimos, ele morreu!", num trocadilho com a frase em latim "Veni, vidi, vici" (Vim, vi, venci). A sua posição no governo era diplomática; ela não era uma comandante militar com a missão de matar o ditador da Líbia. Por que tanta felicidade?

Na segunda-feira, 21 de março, Hillary palestrou na conferência da AIPAC. Para quem não conhece, a AIPAC é o grupo de lobby pró-Israel mais influente nos EUA. Seu discurso foi uma sinfonia de adulação. Começando com "É maravilhoso estar aqui e ver tantos amigos" e sendo muito aplaudida, falou de como os israelenses vivem num estado de medo por conta dos terroristas palestinos. Reafirmou e reafirmou seu comprometimento com a aliança estratégica entre os EUA e Israel, propondo um novo acordo de dez anos para garantir a "Qualitative Military Edge" (Vantagem Militar Qualitativa") de Israel. Esse acordo garante, por lei, que Israel sempre será o primeiro país da região a receber novas tecnologias militares, ou seja, sempre mantendo sua superioridade em relação aos vizinhos que também possuem acordos militares com os EUA. Isso também garante que o rico estado de Israel receba bilhões de "ajuda" do governo estadunidense.

A candidata disse também que "a América não pode ser neutra em relação a segurança e a existência de Israel", num ataque a Donald Trump. Trump critica o envolvimento dos EUA em custosas guerras no Oriente Médio, argumentando que o país estaria muito melhor caso os trilhões fossem investidos em infraestrutura doméstica. Hillary também duramente sobre o Irã, o associando a violência na região. Seu tom parece querer deixar claro que ela não teria medo de utilizar força militar em diversas situações.

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Deixando a política externa de lado, quais outros interesses será que Hillary defenderia caso fosse presidente? O mais óbvio é Wall Street, algo que Bernie Sanders vem atacando faz tempo.

A Fundação Clinton recebeu milhões de dólares de Wall Street nos últimos anos. Goldman Sachs, Citigroup, HSBC, Barclays, Wells Fargo, JP Morgan, Blackstone Group, UBS, Deutsche Bank, Morgan Stanley, Merril Lynch; todos contribuíram para a Fundação. Todos também estavam no centro do criminoso colapso financeiro de 2008, que não resultou em praticamente nenhuma condenação por conta da política de Obama de "olhar para frente, não para trás". Essa crise acelerou a concentração de renda, que chegou a níveis jamais vistos. Os banqueiros usaram milhões de dólares do tesouro dos EUA para pagarem polpudos bônus a si próprios, enquanto milhões de pessoas perdiam seus empregos e até suas casas, caindo na miséria.

Em janeiro, quando perguntada por um jornalista do The Intercept, Lee Fang, se divulgaria a transcrição de seus discursos ao Goldman Sachs, ela simplesmente riu e não respondeu (segundo uma pessoa presente num discurso proferido por Hillary em 2013 - pela módica quantia de US$225 mil - ela "soava mais como um diretor do Goldman Sachs"). Pouco tempo depois, foi perguntada novamente, durante um debate em rede nacional, e disse que iria "pensar sobre o caso". Em outro debate, perguntada novamente, tinha uma resposta pronta: só liberará as transcrições caso todos os outros candidatos também façam o mesmo. Por que essa extrema relutância em divulgar seus discursos? O meu palpite é que discursos bajulando banqueiros criminosos não cairiam nada bem com os 99% da população que não se beneficiaram nem um pouco da crise.

Além disso, há a investigação em aberto do FBI sobre o uso ilegal de um servidor pessoal de e-mails na época que ela era Secretária de Estado. O escândalo, que só foi notícia ano passado, mas que continua em desenvolvimento, é gravíssimo a ameaça a própria elegibilidade de Clinton. Mas vai ficar pra outro post...

17.3.16

"Trump ou Clinton, que diferença isso faz?" - Coluna no jornal Hora do Povo, 17/03

Trump ou Clinton, que diferença isso faz?

As eleições dos EUA estão tomando uma forma cada vez mais definida conforme as primárias avançam. Os eleitores Republicanos estão mandando uma mensagem muito clara: querem Donald Trump como seu candidato. Os líderes do partido, no entanto, estão com medo dessa possibilidade. Do lado Democrata, há uma divisão entre Hillary Clinton e Bernie Sanders. Clinton comanda um aparato político e de propaganda formidável, que não teve escrúpulos para atacar Sanders e se blindar. Sanders tem um considerável apelo popular – inclusive entre os militares, segundo uma pesquisa que saiu no jornal MilitaryTimesmas deve perder a nomeação.

O medo do aparato político Republicano do candidato Trump se deve a vários fatores. O central, porém, é que ele não pode ser controlado da mesma forma que outros candidatos poderiam ser, já que não é um político de carreira. Ted Cruz e Marco Rubio andam nos corredores do Congresso há anos e recebem dinheiro de diversos lobbys. Portanto, estão firmemente atrelados aos interesses de certos grupos. É só ver como Cruz e Rubio aproveitam toda oportunidade para louvar a aliança EUA-Israel, enquanto Trump diz que quer se desvencilhar de todo o conflito no Oriente Médio.

Hillary Clinton, por sua vez, votou a favor da guerra ao Iraque, comemorou a morte de Kaddafi, que deixou a Líbia no completo caos, e apoiou o programa para armar rebeldes na Síria, que gerou uma guerra catastrófica, abriu caminho para o Estado Islâmico e botou lenha na fogueira de uma enorme crise de imigração. Sanders, por sua vez, tem uma posição mais pacifista, mas como disse, não deve disputar a presidência.

Mas no final das contas, é praticamente tudo jogo de cena. Quem toma a cadeira do Presidente na Casa Branca, faz alguma diferença? Um dos maiores exemplos talvez seja o ocupante atual, Barack Obama. Alçado à Casa Branca numa onda popular baseada na “Esperança”, na “Mudança” e no “Sim, nós podemos”, ganhou o prêmio Nobel da Paz antes mesmo de completar um ano na presidência. Hoje, ele é o presidente que autorizou mais ataques por drones, manteve aberta a prisão criminosa de Guantánamo e não fez nada em relação a espionagem emmassa da National Security Agency, a NSA. Assinou a maior venda de equipamento militar da história, no valor de US$ 60 bilhões –para a Arábia Saudita, que agora utiliza o equipamento para bombardear a pobre nação do Iêmen. Ainda por cima, é o presidente que mais perseguiu cidadãos estadunidenses pelo crime de “espionagem”. Entre aspas, já que nenhum dos acusados foi preso por fornecer informações secretas para outro país. Em geral, o crime desses cidadãos foi ir a público com informações de que um ou outro programa da CIA, da NSA, do FBI, etc., estava indo muito além do que a lei permitia…

GOVERNO SECRETO

Em 1964, um livro seminal sobre a CIA foi escrito por David Wise e Thomas B. Ross. O título era “O Governo Invisível”, e falava sobre as inúmeras guerras secretas da CIA durante a Guerra Fria. Em 1993, Peter Dale Scott escreveu o livro “Deep Politics and the Death of JFK” (Política Profunda e a Morte de JFK, sem tradução para o português), demonstrando como há muita gente que sequer sabemos o nome, mas que influenciam profundamente os acontecimentos políticos. Em 2015, um jornalista da Harper’s Magazine, Scott Horton, escreveu “Lords of Secrecy: The National Security Elite and America’sStealth Warfare” (Lordes do Sigilo: A Elite da Segurança Nacional e a Guerra Furtiva da América, também sem tradução para o português). Indo a fundo na questão, resgata a história da própria Atenas – onde o debate franco e aberto sobre a guerra era essencial – e contrasta com os EUA moderno. Segundo o autor, hoje em dia, as decisões sobre guerra e paz nos EUA são tomadas entre quatro paredes, em segredo, por seletos membros de uma elite nacional.

Enfim, governo invisível, profundo ou sigiloso, não importa o nome. Independentemente de quem for eleito o representante do povo, eu aposto que “a máquina da guerra seguirá girando”.

10.3.16

"Trégua na Síria" - Coluna de 09/03/2016

Trégua na Síria

O “cessar de hostilidades” aprovado pelo conselho de segurança da ONU na sexta-feira, 26 de fevereiro, parece ter surtido algum efeito. Mas quem, realmente, está ganhando com esse cessar- fogo? Será que esse cessar-fogo não tem mais de uma face?

Por um lado, o acordo traz a possibilidade de algum alívio para os cidadãos sírios pegos no fogo cruzado de uma guerra indireta entre Síria, Irã e Rússia contra Arábia Saudita, Turquia, EUA e outros. Mas por outro, serve como um breque para um conflito que agora está tendendo para uma vitória do Exército Sírio. Com o apoio da força militar russa – aviões modernos, mísseis de longo alcance e capacidade de observação por satélites – o governo de Bashar Al Assad foi capaz de se recolocar na ofensiva contra os grupos que querem derrubá-lo. E os grupos que querem derrubá-lo são apoiados pelos países que mencionei acima.

Diversos representantes do governo dos EUA, de uma forma ou outra, alertaram que a Arábia Saudita é a principal financiadora do terrorismo global, entre eles Bob Graham, o líder da investigação sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, e Stuart Levey, subsecretário do Tesouro Para Inteligência Financeira e de Terrorismo. O ex-embaixador dos EUA na Turquia, Francis Riccardone, disse ementrevista ao jornal britânico The Telegraph que o governo turco cooperou com a organização terrorista Jabhat Al Nusra – uma descendente direta da Al Qaeda – visando a desestabilização do governo de Assad, enquanto o governo dos EUA olhava para o outro lado. Praticamente todos os grupos terroristas que atuam na Síria foram criados após 2011. As manifestações populares parecem ter sido apenas uma cortina de fumaça para ocultar a realidade: que grupos vindos de fora da Síria entraram no país e passaram a atacar o governo de Assad. E mesmo assim, ainda hoje, os EUA insistem na narrativa de que há rebeldes “moderados”, que querem apenas mais democracia na Síria.

Vejam a posição da representante dos EUA no conselho de segurança, Samantha Power. Na reunião que aprovou o “cessar de hostilidades”, ela foi a primeira a falar. Com muita seriedade, falou sobre o sofrimento de mulheres e crianças sírias. Falou que o conflito é um dos mais brutais em uma geração. Falou da necessidade de compromisso real das partes com o cessar-fogo… E então passou a criticar os russos e sírios, e exigir a saída de Bashar Al Assad. Chegou ao ponto de acusar os russos de bombardearem alvos totalmente civis no subúrbio de Damasco. O enviado da Síria ao Conselho, Bashar Ja’afari, foi o último a falar, e prontamente rebateu tal acusação. Na realidade, tal subúrbio teria elementos da Jabhat al Nusra, e seguiu numa explicação de como lideranças da Al Qaeda formaram essa nova organização. Também ressaltou o fato de que Power simplesmente não mencionou o nome da Al Qaeda. Talvez seja vergonha, já que os EUA estão há mais de 15 anos lutando contra essa organização e não conseguiram eliminá-la. Pelo contrário, sua atuação só expandiu desde 2001.

No fundo, parece que a decisão dos EUA de apoiar os mujahidin (jihadistas) lá na década de 80, no Afeganistão, contra um governo comunista que estava se instaurando no país, simplesmente se tornou uma peça fundamental da sua política externa. Apoiar o extremismo islâmico, quando conveniente, passou a fazer parte do arsenal de medidas para estender o controle do império “excepcional” sobre o mundo. E assim chegam nessa posição esquizofrênica de, por um lado, estabelecer sistemas de vigilância orwellianos que passam por cima de direitos constitucionais, bombardear, torturar e matar em nome do antiterrorismo, e por outro, apoiar, direta ou indiretamente, inúmeros grupos terroristas!

Link do original: http://www.horadopovo.com.br/2016/03Mar/3421-09-03-2016/P7/pag7d.htm


19.2.16

Ataque em Ancara

Desde que escrevi a coluna publicada hoje, houve um grupo que assumiu a responsabilidade do ataque terrorista em Ancara, que atingiu um ônibus de militares turcos. O grupo se chama Kurdistan Freedom Falcons (Falcões da Liberdade do Curdistão). É claro, as manchetes dizem que "um grupo curdo" atacou o ônibus de militares. De fato, o grupo é curdo. Porém, é um grupo que foi rejeitado pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), após ter começado uma campanha de ataques terroristas.

Ou seja, aqui temos um grupo que não faz parte da aliança do YPG. É um grupo desgarrado, mas que serve perfeitamente aos propósitos do governo turco - e, por extensão, da aliança anti-Assad. É possível culpar "os curdos" pelos ataques, e perpetuar a linha de que os curdos querem guerra com a Turquia, justificando assim uma ofensiva turca.

Diversas guerras começaram com mentiras. A resolução do Golfo de Tonkin, que deu a legitimidade e o impulso para o início da Guerra do Vietnã, foi baseada em um ataque que não aconteceu. A assassinato de bebês iraquianos numa maternidade, por soldados de Saddam Hussein, que comoveu a opinião pública dos EUA, foi uma farsa de uma empresa de marketing. Em setembro de 2013, em resposta a um suposto ataque químico do governo sírio em 21 de agosto daquele ano, o legislativo estadunidense quase aprovou uma "Autorização de Uso de Força Militar" que levaria os EUA a uma guerra direta contra a Síria. O governo dos EUA nunca apresentou provas de que o ataque foi feito por forças sírias. Anos depois, ainda não temos provas e há indicações que o ataque foi feito pelos rebeldes, não pelo governo.

"A névoa da guerra" - Coluna no jornal Hora do Povo, 19/02/2016

A névoa da guerra

Os tambores da guerra batem cada vez mais alto. Na Síria, houve uma escalada do conflito. A Turquia atacou uma base aérea controlada pelo YPG* na região de A'zaz, dizendo que o YPG está aproveitando a luta contra o ISIS para avançar demais sobre o território turco. Os EUA, que há apenas duas semanas elogiaram o YPG como um dos mais eficientes aliados no combate ao ISIS, ficou na delicada posição de ter que condenar uma ação militar por parte de um aliado. Esse ataque veio logo após uma decisiva ofensiva da coalizão Síria-Rússia-Irãsobre a cidade de Aleppo, uma das fortalezas dos rebeldes que querem derrubar o governo de Assad. O ataque também violou um acordo de cessar-fogo estabelecido em Munique apenas quatro dias antes. Pra completar, a Arábia Saudita e a Turquia passaram a dizer que estão apenas esperando o aval da coalizão anti-ISIS para iniciar uma invasão por terra na Síria.
O ataque ao YPG, propagandeado pela Turquia como autodefesa, nada fora do comum, acabou servindo mais de um propósito. Ao mesmo tempo que permitiu ao governo turco reafirmar sua posição contra o PKK, também enfraqueceu uma importante organização armada que está de fato atuando ao lado do governo Bashar Al Assad. A Turquia e a Arábia Saudita estão bastante comprometidas em retirar Assad do poder e, para isso, estão apoiando e financiando diversos grupos rebeldes no território sírio. Com isso, acabam indiretamente apoiando o próprio ISIS, que se beneficia da desestabilização do governo e do enfraquecimento do Exército Sírio.
O acordo de cessar-fogo foi bastante peculiar. Primeiro, é óbvio que um acordo diplomático só se aplica a entidades que acreditam na via diplomática – o que já exclui o ISIS, o Jabhat al-Nusra e inúmeros outros grupos. Isso levou Bashar Al Assad a comentar quetal acordo é simplesmente impossível de ser levado a cabo. Afinal, o Exército Sírio não vai ficar de braços cruzados enquanto os terroristas continuam a agir. Nem a Rússia, que continuou sua campanha de bombardeios em apoio a Assad – levando a mídia a condená-los por “violarem o acordo”.
O discurso em concerto da Turquia e da Arábia Saudita – ameaçando uma invasão por terra com milhares de tropas para “acabar com o conflito”– mostra que ambos os países estão impacientes com a guerra na Síria. É uma ameaça dupla. Primeiro, é uma ameaça a coalizão Síria-Rússia-Irã, já que o alvo de tal invasão é Bashar Al Assad. Segundo, é um modo de colocar os EUA contra a parede. Ou os EUA estão com os turcos e os sauditas, ou estão contra eles.


P.S.: Enquanto fecho esta coluna, um ataque brutal ocorreu na capital daTurquia, Ancara, matando 28 pessoas. O ataque foi próximo ao parlamento turco, e atingiu um ônibus que carregava soldados turcos. Até agora, nenhum grupo assumiu a responsabilidade do ataque, o que eu acho bastante suspeito. Afinal, um ataque bem sucedido num alvo tão significativo deveria ser motivo de comemoração, para um grupo terrorista. Há a possibilidade do governo turco culpar o PKK e utilizar o ataque como a gota d'água para justificar uma ofensiva militar mais robusta sobre os curdos – o que, talvez, seja o primeiro passo para a tal “invasão por terra” para tirar Assad do poder.

*: Unidades de Proteção Popular, uma organização militar que tem o apoio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Link do original: http://horadopovo.com.br/2016/02Fev/3416-19-02-2016/P7/pag7e.htm

12.2.16

"Amizades perigosas" - Coluna no jornal Hora do Povo, 05/02/2016

Amizades Perigosas

Afinal, de que lado os EUA estão na guerra na Síria? Vou fazer uma pequena análise de maneira indireta – olhando para o que os seus aliados próximos fazem. O bom e velho “diga-me com quem andas que direi quem tu és”…

A Arábia Saudita - “um ISIS que deu certo”, segundo o colunista do New York Times Kamel Daoud - praticamente deve sua existência aos EUA. Sem as volumosas vendas de material militar do Pentágono para a família dos Saud, dificilmente o país seria uma potência regional. Os EUA, por sua vez, ganham um local privilegiado para utilizar de base nas suas aventuras sangrentas no Oriente Médio, e também uma demanda permanente por seus dólares, já que essa é a moeda oficial para os negócios da Aramco, a empresa nacional responsável pela exploração do petróleo no país.

A religião oficial do reinado da Arábia Saudita é uma forma do islamismo sunita chamada Wahhabismo. É por isso que a lei islâmica, a Sharia, é a lei do reinado. É por isso que a decapitação, a crucificação e o apedrejamento fazem parte das punições legais de lá. É por isso que as mulheres não podem dirigir. A oposição ao governo é punida com a morte. A resposta dos EUA quando esse tipo de assunto é tocado é padrão: eles dizem que “estão pedindo para que os governantes sauditas respeitem os direitos humanos”. Obviamente, seus pedidos não fazem muito efeito.

O ápice da contradição dessa relação entre EUA e Arábia Saudita veio no 11 de setembro de 2001. A primeira investigação sobre o ataque por uma comissão parlamentar, que terminou em dezembro de 2002, foi marcada por uma verdadeira muralha com relação as informações do financiamento da Al Qaeda pelos sauditas. No relatório final, há um capítulo sobre esse financiamento. Mas até hoje, o público não sabe o que esse capítulo diz, já que ele foi inteiramente censurado em nome da “segurança nacional”, para não envergonhar os “amigos” sauditas. Será que esse acobertamento não ajudou as organizações irmãs da Al Qaeda a prosperarem e se espalharem pelo mundo – inclusive na Síria? Será que alguns desses financiadores estão ajudando o Estado Islâmico hoje?

A Turquia, por sua vez, tem papel-chave no conflito, já que é através de suas fronteiras que o petróleo e parte das armas do ISIS são contrabandeados (a outra parte das armas vem do Iraque, cortesia dos EUA). É na Turquia que alguns dos grupos rebeldes “moderados” são treinados pela CIA e pelo Pentágono e enviados para combater o regime de Assad.

O presidente Putin e seu ministro de Relações Exteriores Lavrov consistentemente apresentam provas dessa ligação crucial para a existência do ISIS. Porém, o país é membro da Otan, aliado dos EUA, e, assim como a Arábia Saudita, não pode ser responsabilizado por fomentar o terrorismo! Por isso, tudo que os russos dizem deve ser desacreditado, dado a mínima importância. Os contundentes discursos antiterroristas de Obama, Kerry, Clinton e outros sempre dão um jeito de se distanciar de tudo que é ruim nos seus aliados, e de seu próprio papel passivo, de não combater firmemente grupos que ajudam os terroristas. Não caiam nessa!

Link do original: http://horadopovo.com.br/2016/02Fev/3414-05-02-2016/P7/pag7f.htm
 

23.1.16

Coluna do jornal Hora do Povo, 22/01/2016

Olá, leitor.

Segue a minha última coluna, publicada nesta edição do jornal Hora do Povo.

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Cúpula das Sombras

Nesta coluna, procuro dar um ponto de vista diferente sobre acontecimentos recentes ao redor do mundo que dizem respeito a expansão do império estadunidense. Mas hoje vou dar um passo para trás, e vou falar sobre um pouco da história que me ajuda a compreender o andar dessa carruagem imperial, e que talvez ajude o leitor também.

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No meu blog, escrevi dois artigos sobre a CIA (um e dois). No primeiro artigo, falei sobre o National Security Council (Conselho de Segurança Nacional), que reúne a alta cúpula do Poder Executivo dos EUA: Presidente, Vice-Presidente, Secretário de Defesa, Secretário de Estado e outros convidados. As reuniões do NSC são parte importantíssima de todas as presidências a partir de 1947, quando a entidade foi criada. Por exemplo, foi durante uma reunião do NSC em 11 de dezembro de 1962 que John F. Kennedy discutiu um documento secreto doDepartamento de Estado que descrevia “colaborar com elementos brasileiros hostis a Goulart visando sua derrubada” como uma das alternativas para os EUA frente a situação política do Brasil na época. Foi numa reunião do NSC em 30 de janeiro de 2001 que Bush, Cheney, Rumsfeld e companhia começaram a discutir a possibilidade de travar uma guerra contra o Iraque, uma intenção que o resto do mundo só tomou conhecimento dali a vários meses, quando os EUA responderam aos ataques de 11 de setembro. É também ao NSC que é enviada a nata da inteligência coletada pelos espiões humanos e eletrônicos espalhados pelo mundo.

Negação plausível

No segundo, falei sobre plausible deniability (“negação plausível”). Esse conceito diz respeito a estrutura de uma operação clandestina. Basicamente, é o modo pelo qual os membros do NSC são capazes de dizer que “não sabiam de nada” quando alguma operação dessas dá errado e é tornada pública. Funciona assim: acompanhado da operação em si, é elaborada uma história que os agentes (ou seus superiores) devem repetir caso sejam pegos. O objetivo de tais histórias, além de proteger os agentes, é proteger a cadeia de comando que ordenou tal operação. Por exemplo, em maio de 1960, quando o avião-espião U-2, em missão da CIA, foi abatido em território soviético, a história oficial imediatamente transmitida era de que o voo era da NASA e tinha objetivos “científicos”. O então Primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev usou essa história “plausível” contra os EUA, esperando vários dias para revelar que o avião estava tripulado por um espião, que foi capturado. Isso causou enorme vergonha para a administração Eisenhower. Mais de uma semana depois do incidente, o então Presidente Dwight Eisenhower admitiu que sabia do verdadeiro propósito do voo.

Névoa da ignorância

Essa alta cúpula da Casa Branca, portanto, age de maneira muito sofisticada e furtiva para atingir seus objetivos. E um dos pilares de seu modo de agir é a ignorância do público em relação ao seu funcionamento. Eles literalmente “se safam” de qualquer tipo de exposição pública – ou punição – mesmo quando vão contra diversas leis e convenções. A guerra do Iraque, por exemplo, nos foi vendida como uma “resposta” ao ataque de 11 de setembro de 2001. Porém, quando o conteúdo das primeiras reuniões do NSC sob Bush foi revelado, ficou claro que os ataques foram apenas uma “desculpa”, e que a guerra ao Iraque estava sendo planejada muito antes deles. Será que se o público soubesse disso, a guerra teria o apoio que teve?
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