26.5.15

Manchetes do Mês Passado - III

Olá, leitores.

Mais uma sequência para tentar alcançar os dias de hoje.

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30 de abril de 2015

WhoWhatWhy: "Quando um Infiltrado do FBI se Torna um Criminoso?"

Nesta entrevista de 20 minutos, Russ Baker descreve brevemente como tem sido o julgamento de Dzhokhar Tsarnaev. Ele diz: "a defesa disse que ele cometeu o crime, o que deixou as pessoas um pouco confusas já que se esperava algum tipo de defesa... Mas de qualquer maneira...". Ele também se aprofunda um pouco sobre a questão do FBI. O FBI entrevistou Tamerlan, o irmão e "arquiteto" do ataque, antes de Tamerlan ir ao Dagestão e supostamente receber treinamento terrorista. Nessa entrevista, Tamerlan simplesmente disse que "não era um jihadi", e o FBI concluiu que não havia nada mais a fazer, o que Russ achou bastante estranho. Depois da viagem ao Dagestão, o serviço antiterrorista russo avisou o FBI, que novamente não agiu de maneira alguma. 
Segundo Russ (a partir de 6:45), "para mim, o que eu percebi nesta história, consistentemente, é que o governo federal estava muito preocupado sobre alguma coisa que ele não estão revelando, e era muito, muito importante, mudar o 'tom' do julgamento. Eles estabeleceram uma pesada operação psicológica nesta história. Se você olhar outros julgamentos federais, nunca houve tantos vazamentos para a mídia e uma preocupação tão grande em criar uma narrativa, uma narrativa mística, sobre o evento. O que estou falando é que, e a mídia sequer está falando sobre isso, é que não é normal, por exemplo, um policial ser baleado e haver passeatas, cervejas nomeadas em homenagem a ele, maratonas de 10km, camisetas e por aí vai. (...) Ele nem era um policial, era um guarda universitário, ele nem estava envolvido no atentado em si. (...) De fato, a história de sua morte é confusa, sequer temos a certeza que foram os irmãos Tsarnaev que o mataram, o vídeo mostra apenas 'vultos com capuzes'. E depois, o Vice-Presidente Biden viajou [para Boston], houve uma grande passeata... É tudo meio estranho... E se você olhar para os regimes ao longo da história, quando eles fazem uma coisa assim é porque há algum interesse nisso, qual é, eu não sei."

The Intercept: "A Demissão Covarde de um Jornalista da TV Estatal Australiana Destaca a Verdadeira Religião do Ocidente"

Nesta boa matéria de Glenn Greenwald, ele chama atenção para o caso de Scott McIntyre, que foi demitido após questionar, no Twitter, o "patriotismo" de um feriado nacional australiano, em que todo o país estava elogiando seus militares, sem pensar no que, por exemplo, eles também fizeram onde lutaram: estupraram e executaram sumariamente. Imediatamente, o ministro Turnbull disse que os comentários de McIntyre eram "ofensivos, inapropriados e desprezíveis". Esse ministro é responsável pelo ministério que dá 80% dos fundos da rede SBS, que empregava McIntyre. Pouco tempo depois, a rede tuítou que "apóia os militares e dedicou enormes recursos para a cobertura destas comemorações", e o jornalista foi sumariamente demitido. Greenwald conlcui: "A grande, grande maioria do discurso política sobre política externa - especialmente dos comentadores midiáticos dos EUA e da Grã-Bretanha - consiste em pouco mais que variadas declarações de superioridade tribal: nós somos melhores e assim nossa violência é justificada. (...) É por isso que Scott McIntyre foi demitido: porque ele questionou e disputou a mais sagrada doutrina da religião Ocidental."

The Intercept: "Emails Revelam Relacionamento Próximo Entre Grupo de Psicologia e a CIA"

Nesta matéria a jornalista Cora Currier explora os emails revelados recentemente, da correspondência entre psicólogos da CIA e executivos da American Psychology Association. A APA fez uma emenda em seu código de ética em 2002 e assim seus membros puderam observar sessões de tortura. Essa emenda foi retirada em 2010. A APA também deu conselhos para a administração Bush sobre como reagir ao escândalo de tortura em Abu Ghraib. A Associação nega basicamente tudo. Segundo o livro The Search for the Manchurian Candidate, de John D. Marks, que investiga os projetos de "controle da mente" da CIA revelados nos anos 70, a APA tem um relacionamento com a CIA desde os anos 50. Este especial da ABC de 1979 sobre esses mesmos projetos de controle da mente, feito em colaboração com John D. Marks, entrevista diversos ex-membros da APA, que na verdade falam bem tranquilamente do seu papel nessas experiências. Infelizmente esse contexto não é dado na matéria de Cora Currier...
 
WhoWhatWhy: "Ironia das Ironias: Ordenaram que Investigadores que Identificaram Enormes Desperdícios no Afeganistão Façam Cortes de Pessoal"

A matéria começa com a seguinte frase: "Que tal essa injustiça poética? Os investigadores que descobriram que metade dos fundos investidos no Afeganistão desapareceram ou foram desperdiçados... foram ordenados a cortar seu quadro de funcionários." O SIGAR (veja o primeiro link do post anterior) passou de 42 para 25 funcionários. Isso é tão típico. O governo estabelece uma equipe para investigar corrupção, e anuncia a "transparência" aos quatro ventos; a equipe invariavelmente descobre algo, e é prontamente ignorada.

25.5.15

Manchetes do Mês Passado - II

Olá, leitores.

Segue mais algumas notícias do mês passado... Aos poucos vamos chegar nos dias de hoje :).

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28 de abril de 2015

WhoWhatWhy*: "Quem Quer Ser um Milionário? Edição da Reconstrução do Afeganistão"

Esta matéria comenta um relatório do SIGAR, que é o escritório responsável por fiscalizar as obras de reconstrução no Afeganistão, e que já revelou bilhões de dólares em desvios e mau uso do dinheiro público. Esse relatório é sobre a construção cancelada de um abatedouro, que foi mal planejado e não atenderia às necessidades da população local. A empresa contratada para construir recebeu 1,5 milhões de dólares para construir "parte de uma parede, um poço d'água e uma coluna para uma guarita". Essa empresa está pedindo um adicional de 4,3 milhões de dólares pelo trabalho já realizado. O assunto da reconstrução do Afeganistão (e Iraque) será alvo de outros posts...


Um estudo do Brookings Institute "prova" que "dor, preocupação, tristeza e raiva" estão mais presentes entre os mais pobres que os mais ricos.


29 de abril de 2015


Zero Hedge: "Os Mercados Financeiros Controlam Tudo Agora"

Um post do blogger Charles Hugh-Smithque denuncia constantemente o absurdo que foi a reação dos governos à crise de 2008. Nessa crise, diversos bancos gigantes ficaram à beira da falência e foram salvos por medidas "extraordinárias" que se tornaram normais (e que custaram bilhões aos cidadãos). Destaquei esse post por conta da analogia que ele fez: em Yellowstone, a famosa reserva florestal dos EUA, a floresta acumula galhos e folhas mortas que eventualmente pegam fogo, num processo natural. No entanto, os guardas começaram a apagar o fogo muito cedo, o que causou um acúmulo dessa matéria morta e seca na floresta. Um dia, é claro, um incêndio fugiu do controle por conta do nível anormal de matéria seca. A analogia é que o sistema financeiro também cria "matéria morta", ou seja, bancos que estão podres, falidos, e que devem sair do sistema. No entanto, o enorme poder político dos bancos gigantes fez com que eles se salvassem, porém as partes podres continuam no sistema. Isso vai resultar numa catástrofe incontrolável no futuro, como foi o incêndio em Yellowstone em 1988.

The Intercept: "O Caminho de Tamerlan Tsarnaev para o Extremismo Marcado por Contatos com o FBI"


O julgamento de Dzhokhar Tsarnaev, acusado do atentado na Maratona de Boston de 2013, que começou em março deste ano, gerou diversas matérias (ele foi condenado à morte em 15 de maio). Nesta, é apontado que o irmão de Dzhokhar, Tamerlan, que morreu na perseguição que se seguiu ao atentado, teve diversos contatos com o FBI, incluindo entrevistas e possivelmente um trabalho como informante. É uma das facetas intrigantes do caso. Quando o atentado aconteceu, eu fiquei a semana inteira (do atentado até a prisão dos suspeitos) grudado na CNN e nos sites e fóruns alternativos. Posso dizer que esse atentado, como inúmeros outros, tem uma história mais complexa do que o noticiado, e que envolve agências como o FBI e a CIA. Vai ser assunto de um post também...

Washington's Blog: "Os EUA Vaporizaram as Ilhas Marshall e Fizeram Experimentos Humanos em Seus Nativos"

Neste post, o Washington's Blog chama atenção para um novo documentário "Nuclear Savage", que investiga um projeto secreto de teste de radiação em seres humanos que se passou com os habitantes das Ilhas Marshall entre 1946 e 1958. O trailer chama atenção para o modo como os habitantes das ilhas foram descritos para a audiência estadunidense em 1957: "selvagens".

Viomundo: "Paulo Pimenta: 'Curiosamente, a Zelotes Não é Notícia"

A Operação Zelotes descobriu um esquema multibilionário de sonegação de impostos e pagamento de propinas - os valores são maiores que o da Lava Jato, muito maiores que o do Mensalão - e, no entanto, a cobertura da mídia é totalmente desproporcional. Por que? Bem, não há muitos petistas envolvidos na Zelotes, mas lá estão bancos, a Globo, etc...

Viomundo: "Fátima Oliveira: A carnificina (ou seria genocídio?) de jovens negros no Brasil"

Nesta nota, Fátima Oliveira chama atenção para os resultados da CPI da Violência contra Jovens Negros e Pobres, que, sendo liderada por um petista e tocando num assunto muito espinhoso, também não recebeu cobertura da mídia. Os dados chocam. A impunidade dos agentes policiais sempre foi conhecida, mas essa CPI deu uma informação mais precisa: em apenas 5% das chacinas se estabelece um inquérito.

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*: WhoWhatWhy é um site de mídia alternativa fundado por Russ Baker. Ele foi um jornalista mainstream que, quando pesquisou a vida de George W. Bush para um livro, mudou totalmente de opinião sobre o que era coberto pela mídia, e sobre a própria história dos EUA. O título do livro acabou ficando como "Família de Segredos: A Dinastia Bush, O Governo Invísivel da América e a História Oculta dos Últimos Cinquenta Anos" (Family of Secrets: The Bush Dynasty, America's Invisible Government, and the Hidden History of the Last Fifty Years). É excelente, quando terminar de ler também vai ser assunto de um post.

24.5.15

Manchetes do Mês Passado - I

Olá, povo.

Vou começar uma nova sequência no blog, um apanhado das notícias que tenho lido, com um pequeno resumo/contexto. Eu utilizo o aplicativo RSSDemon no celular, que junta diversos sites num lugar só - como se fosse um jornal personalizado, e seleciono algumas notícias para estes posts. Então, segue uma lista com as últimas notícias que me chamaram a atenção. Neste começo vou postar as minhas favoritas mais antigas, que acumularam, mas daqui a um tempo serão notícias mais atuais.

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17 de abril de 2015


Uma matéria curta, mostrando um vídeo da companhia Unicor, que gerencia mão de obra em prisões, que emprega prisioneiros em call centers por um salário que pode chegar à 23 centavos por hora (o salário mínimo dos EUA é de aproximadamente 7 dólares por hora). "Todos os benefícios da terceirização offshore dentro dos EUA!"


Matéria do jornalista Jeremy Scahill, autor de um livro que virou documentário, Dirty Wars, em conjunto com a revista alemã Der Spiegel. Foi baseada em uma apresentação Top Secret (fornecida por uma fonte ainda desconhecida), sobre a centralidade da base alemã em Ramstein para o programa de drones dos EUA. A conexão Ramstein-drones sempre foi negada tanto pelos alemães quanto pelos americanos.

24 de abril de 2015

The Intercept*: "A Ferramenta Chave da Propaganda da Guerra ao Terror: Apenas Vítimas Ocidentais São Reconhecidas"

Matéria do excelente Glenn Greenwald, uma das pessoas que Edward Snowden entrou em contato para vazar seus documentos em 2013. Recentemente, o Presidente Obama pediu desculpas por um ataque de drone que matou dois reféns acidentalmente. O que Greenwald aponta é que os EUA tem um histórico recente e brutal de matar mulheres, crianças e homens inocentes com drones, inclusive com diversos ataques a casamentos e até a equipes de resgate e funerais. Além disso, ele aponta que os EUA consideram todos os homens entre 18 e aproximadamente 50 anos que estão na área atingida pelos mísseis como "combatentes inimigos", a não ser que, postumamente, se prove que eles não eram militantes (veja esta matéria do New York Times). Segundo Greenwald, "essa mentalidade é o ápice da desumanização".

26 de abril de 2015

Zero Hedge: "A Não-Pax Americana: Onde se Pode Encontrar Forças Especiais Americanas ao Redor do Globo"

Do Wall Street Journal: "Ao longo do ano passado, forças especiais foram para 81 países, a maior parte das vezes para treinar os locais para que forças americanas não precisem lutar". Segundo o jornalista Nick Turse, que se dedica a acompanhar de perto as forças especiais, o oficial de relações públicas do Special Operations Command (SOCOM) declarou um total de países ainda maior: 133 para o ano fiscal de 2014. Ainda segundo Turse, isso resultou num total de 150 países ao longo dos últimos 3 anos.

Zero Hedge: "Banco Central de Boston Admite que Não Há Saída, Sugere que Compra de Ativos (QE) Se Torne Política Monetária Normal"

A unidade de Boston do Banco Central dos EUA, num novo paperdiscutiu a possibilidade do programa de compra de ativos (Quantitative Easing) se transforme de opção "extraordinária" de política monetária para uma ferramenta normal de política monetária. É claro, essa política tem feito maravilhas para 1% dos estadunidenses (NYTimes, Washington Post), enquanto a participação da população na força de trabalho está em níveis baixos recordes (mais de 93 milhões de adultos não estão trabalhando, nem procurando trabalho)...

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*: Os blogs "Unofficial Sources" e "The Intercept" fazem parte da First Look Mediaum conglomerado de mídia alternativa financiado pelo bilionário dono do PayPal e do eBay, Pierre Omidyar. Este conglomerado foi fundado em parceria com Glenn Greenwald e outros, e sua primeira matéria foi sobre os documentos de Edward Snowden. Alguns criticaram Greenwald, dizendo que ele "vendeu" os documentos para um bilionário com laços com a Casa Branca. Eu acho que sim, houve uma cooptação e algumas revelações ainda mais explosivas podem ter sido censuradas. Porém, o time de jornalistas é de alta qualidade e as matérias são bem diferentes do que está na mídia convencional e em boa parte da mídia alternativa.

3.5.15

Comentário: livro "Quando o Google encontrou o Wikileaks", de Julian Assange


Olá, hoje alguns comentários do novo livro do Julian Assange, Quando o Google Encontrou o WikiLeaks.

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    Devo começar dizendo que sou fã do Julian Assange.

    O livro foi publicado pela Boitempo, que vem publicando livros sobre o Wikileaks/Julian Assange há um tempo. Li o outro livro dele, Cypherpunks, também publicado pela Boitempo, que é uma conversação entre ele e três outros hackers, sobre os mais diversos assuntos.  Também devo dizer que acho que o hacker é um ativista essencial. O hacker pode ter acesso à segredos; pode causar imenso desconforto para grandes corporações; pode incomodar governos. Além disso, o hacker é simplesmente um explorador. Não está interessado em destruir, roubar, "derrubar sistemas" ou o que normalmente é atribuído à ele. É simplesmente um curioso, um explorador, um desbravador, inovador, que usa a tecnologia a seu favor.

    Não vou fazer um grande apanhado de quem é Julian Assange e porque sou fã dele. Talvez num post futuro. Para este texto, só preciso dizer que Assange é um ativista incansável, focado, criativo, inovador - enfim, extraordinário. E também escreve bem, o que ajuda bastante. Bom, vamos ao livro.

    O livro é resultado de uma conversa entre:
   Resumidamente, Assange foi contatado por Schmidt e Cohen para ter uma conversa. Cohen e Schmidt iam escrever um livro e estavam fazendo entrevistas com diversos visionários do mundo da tecnologia, queriam que Assange participasse, e ele topou. A conversa se passou em Norfolk, Inglaterra, em 2011, quando Assange estava sob prisão domiciliar.

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    O primeiro capítulo de Quando o Google... é a descrição de Assange para o contexto desse convite, que foi feito em 2011. O que ele descreve é o que ele descobriu após ter feito a entrevista. Ele descobriu que seus 4 interlocutores estavam ligados ao Departamento de Estado e ao establishment estadunidense, e deduziu que um dos objetivos da entrevista, portanto, era descobrir informações sobre o Wikileaks para ajudar o governo a controlá-lo. Esse capítulo é especialmente bom; são 20 páginas escritas, e 11 páginas de notas e fontes. Além de falar do caso da entrevista, Assange também revela uma aguçada visão da política externa dos EUA e de relações internacionais em geral, e como ela está atrelada, muito mais que imaginam, às empresas de tecnologia e mídia social. Do livro (pág. 35):
Comecei a ver Schmidt como um brilhante bilionário californiano da área de tecnologia, mas politicamente inapto, que era explorado pelo mesmo pessoal da política externa dos Estados Unidos que ele procurou para servir de intérprete entre o Google e o governo em Washngton - um exemplo do problema do principal agente entre a Costa Oeste [onde estão as empresas de tecnologia] e a Costa Leste [onde está Washington, D.C.] dos Estados Unidos.
Eu estava errado. (...)
Em 2008, Schmidt assumiu a presidência do conselho administrativo [da New America Foundation, um think tank de Washington]. (...)
O envolvimento de Schmidt com a New America Foundation o coloca firmemente no centro do establishment de Washington. Outros membros do conselho administrativo da fundação - dos quais sete também são membros do Council on Foreign Relations - são Francis Fukuyama, um dos mentores do movimento neoconservador; Rita Hauser, que serviu no Conselho Consultivo de Inteligência da Presidência, tanto no governo de Bush quanto no de Obama; Jonathan Soros, filho de George Soros; Walter Russell Mead, estrategista de segurança e editor da American Interest; Gelene Gayle, que faz parte do conselho administrativo da Coca-Cola e da Colgate-Palmolive, da Fundação Rockefeller, (...) e Daniel Yergin, geoestrategista da indústria petrolífera (...). 

    O que Assange fez nesses parágrafos foi uma análise de rede. Ele demonstrou que Schmidt, longe de estar ligado com algum tipo de vanguarda inovadora quando o assunto é política, está "firmemente no centro do establishment de Washington", que, no caso do último século, gira em torno do Council on Foreign Relations. Esse think tank vai ser assunto de um post à parte, mas por enquanto, vale dizer que os Presidentes Herbert Hoover, Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, George Bush (pai) e Bill Clinton já passaram por lá (assim como inúmeros membros de seus gabinetes - Secretários de Defesa, de Estado, Chefes de Gabinete, etc.).
    Ou seja, Schmidt, ao invés de se rebelar - como seria esperado de um filho do Silicon Valley - foi atrás daqueles centros de poder que sempre foram a ponta de lança do imperialismo estadunidense. E Assange, ingenuamente, tinha achado que esse não era o caso.
    Essa introdução é matadora. Assange é muito honesto ao demonstrar sua própria ingenuidade, mesmo estando no "olho do furacão" de uma enorme controvérsia internacional. Ele sabia do papel revolucionário que o Wikileaks tinha, principalmente no que diz respeito à seu confronto com os estados nacionais, ditatoriais ou não, que buscavam gerir a informação de maneira censitária. Ao mesmo tempo, não tentou imaginar que tal convite de Schmidt e Cohen poderia ter segundas intenções. Isso fica ainda mais claro durante a parte principal do livro, que é o diálogo entre eles.

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    No começo do diálogo propriamente dito, me pareceu que Julian Assange tentou impressionar Schmidt. Rapidamente, revelou aos seus interlocutores detalhes técnicos da operação Wikileaks - e por consequência, para o Departamento de Estado, e também para sabe-se lá qual outra agência. Isso talvez não sido um grande problema, já que o WikiLeaks continuou funcionando, porém seus vazamentos parecem ter diminuído em impacto após 2011.
    Bom, deixando de lado um pouco a trama de espionagem que permeia o livro, há discussões ótimas entre Assange e os demais. Eles, é claro, estão plugados no que há de mais moderno em tecnologia da informação, então é um livro muito útil para conhecer novas tecnologias - eles conversam sobre Torrent, Bitcoin, jornalismo online, criptografia. Uma discussão que achei bastante relevante para o blog foi sobre o que Assange chamou de "jornalismo científico" (pág. 92):

Julian Assange: (...) A situação da grande imprensa, hoje, é tão terrível que eu não acho que ela tenha conserto. Não acho que ela seja possível. Acho que ela tem de ser eliminada e substituída por uma coisa melhor.
Scott Malcomson: E parece que isso está acontecendo!
JA: É. E eu defendo a ideia de um jornalismo científico - as coisas devem ser citadas com precisão, com a fonte original, e o maior número possível de informações deve ser de domínio público, para ficar disponível para as pessoas, da mesma forma como acontece na ciência, para você poder testar e ver se os dados experimentais de fato levam àquela conclusão. Caso contrário, provavelmente o jornalista só inventou a notícia. Na verdade, é isso que acontece: as pessoas simplesmente inventam as coisas. Inventam a ponto de a gente entrar em guerra. A maioria das guerras dos século XX começou como mentiras amplificadas e espalhadas pela grande imprensa. Você pode dizer: "Bom, isso é terrível; é terrível que todas essas guerras comecem com mentiras". E eu digo que não, que isso é uma oportunidade tremenda, porque significa que as populações não gostam de guerra e só entraram nela porque foram enganadas, porque mentiram para elas. E isso significa que, se souberem a verdade, elas podem fazer a paz. Isso é motivo de grande esperança [grifo meu]. (...)
O que eu gostaria de ver no jornalismo era a introdução da reputação, como acontece na ciência, que pergunta: "Onde estão os dados que comprovam essa sua alegação?". Se você não apresenta seus dados, por que diabos eu deveria levar isso a sério? Agora que podemos publicar na Internet, agora que temos espaço físico para todos os dados, eles devem ser apresentados. Os jornais não têm espaço físico para a fonte primária; agora que temos espaço para a fonte primária, deveríamos criar uma norma para incluir esses dados. As pessoas podem se desviar dessa norma, mas, se elas se desviarem e não se derem ao trabalho de apresentar os dados da fonte primário, por que deveríamos prestar atenção no que elas escrevem? Elas não estão tratando o leitor com respeito.
    Recentemente estava discutindo com colegas sobre a difícil pergunta de "o que fazer?" frente ao estado de vigilância e a esse sentimento generalizado de impotência frente à grande imprensa, à política, às corporações, enfim, ao "sistema" em geral. E um dos pontos de vista que eu sempre tomo é esse que Assange descreveu. Da minha posição, o que eu posso fazer é dar informações e dar fontes. O que cada um vai tirar dessas informações e dessas fontes fica a cargo do indivíduo. É o oposto de uma mídia que está defendendo um interesse específico. Essa mídia não pode dar fontes originais, ela só pode citar parcialmente o que interessa a ela. Ela não pode deixar um entrevistado falar livremente; tem que editar para omitir o que o entrevistado falou que não a agradou. Em geral, essa mídia está atrás de audiência, então ela vende um produto "pronto", uma informação que não precisa ser digerida - você lê ou ouve, e sai repetindo exatamente o que leu ou ouviu.
    É claro que neste blog, eu passo as informações que me interessam. Eu já tenho minhas teorias e minhas conclusões sobre os diversos assuntos que escrevo, mas procuro transmitir as informações como eu as recebi: de início, como informações "cruas", que eu tive que interpretar e conectar por meio dos meus estudos. Por isso estou fazendo tantos posts "genéricos", simplesmente expondo questões estruturais que ajudam a entender o contexto atual em geral. Nesse sentido busco "tratar o leitor com respeito", ou seja, citar extensivamente de onde tirei as informações e deixar aberto o canal para ser questionado com relação à elas (qualquer um pode comentar no blog anonimamente!).
    Sobre o livro, não tenho muito mais a dizer; só que recomendo sua leitura, que é muito pertinente para o momento em que vivemos.

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    Para o próximo post, vou escrever sobre a NSA (National Security Agency). Estou terminando de ler The Puzzle Palace: A Report on America's Most Secret Agency (O Palácio do Quebra-Cabeça: Um Relatório sobre a Agência Mais Secreta da América, sem tradução em português), que é o primeiro livro exclusivamente sobre a NSA. Saiu em 1982, quase 30 anos após a criação da agência. O autor, James Bamford, é considerado um dos maiores experts sobre a NSA. Por isso, vou introduzir o assunto NSA com um comentário sobre esse livro...

    Até!
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