27.2.15

Geopolítica e o "Fim dos Tempos" - Parte 2

Olá leitores!

Vamos a segunda parte.

Geopolítica e o "Fim dos Tempos" - Parte 2

Na parte um apresentei o livro Entre Duas Eras - América: Laboratório do Mundo, de Zbigniew Brzezinski, Zbig para os íntimos, que na minha opinião é excelente para compreender o que acontece no mundo atualmente. 45 anos depois do livro ser escrito, algumas das tendências que ele apontou se concretizaram. Na parte 1, mostrei minha interpretação de que um dos pontos chave é que a troca de informações global aumenta a visibilidade de acontecimentos que antes ficavam confinados em seu próprio contexto. Isso afeta diretamente as populações, que passam a ver pontos de vista diferentes e então questionam o seu próprio contexto e suas instituições.

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Agora, quero falar do outro lado. Se por um lado a população pode ter sede de tais informações, por outro as instituições e os governos querem protegê-las. Vou dar dois exemplos: um de como a informação passa a ser controlada; outro de como lidam com a informação vazada (não, não vou me dedicar ao Snowden... Ainda!).

Vou focar nos EUA, que é o país que tenho mais pesquisado. Pela lei, nos EUA, há quatro tipos de classificação de documentos, que se aplicam à todas as agências do governo estadunidense. As classificações são UNCLASSIFIED, CLASSIFIED, SECRET e TOP SECRET (não-classificado, classificado, secreto e ultrassecreto). Há inúmeros outros modos de controlar a disseminação de informações, mesmo quando são documentos unclassified. O "labirinto" normativo que dita o controle da disseminação de informações não é o assunto aqui. Vou me concentrar nas estatísticas.

A agência que tem a responsabilidade geral de implementar as diretrizes para classificação, fazer estatísticas de documentos classificados, monitorar se as diretrizes estão sendo seguidas, etc., é a ISOO (Information Security Oversight Office - Escritório para Supervisão de Segurança da Informação).

A ISOO relata que entre 1996 e 2013, a "classificação derivativa" cresceu de 5.6 milhões de documentos para 80 milhões de documentos por ano (gráfico na p. 6), passando por um pico de 95 milhões no ano de 2012. "Classificação derivativa" é burocratiquês para dizer que tais documentos não são documentos originais, mas documentos que por utilizarem informações confidenciais de outros documentos, se tornam confidenciais também. Pelos números, dá pra ver que houve uma explosão na utilização de classificação para tornar documentos secretos do público. Ou seja, justamente na época em que o acesso à informação se generalizou e o governo passou a operar com mais documentos eletrônicos que nunca, o número de documentos secretos produzidos aumentou exponencialmente. E isso aconteceu mesmo com as promessas do Presidente Obama de que seria o presidente "da transparência".

Outro aspecto disso nos EUA é o crescimento do número de funcionários que trabalham nos níveis SECRET e TOP SECRET, que foram assunto de uma série de reportagens de dois jornalistas do Washington Post, William Arkin e Dana Priest. As reportagens estão disponíveis aqui, num site feito especialmente para esse assunto. Posteriormente foi publicado um livro, Top Secret America.
Esse mundo de agências - e inúmeras companhias privadas - é um mundo fechado, no qual só entram as pessoas que passam por um processo de escrutínio que pode levar meses. O processo analisa os antecedentes criminais, o histórico escolar nos mínimos detalhes, a família, os hábitos, etc. Após essa análise, o sujeito sai de lá com uma clearance, basicamente um crachá e um cadastro que permitem que ele acesse os segredos necessários para exercer sua função.

Nos EUA, na época do levantamento (2010), havia "aproximadamente 850 mil pessoas" com o crachá TOP SECRET e mais de 4 milhões com o SECRET. O valor do orçamento que movimenta o mundo secreto, chamado de black budget, é de... Bom, é segredo. Porém, um dos documentos que apareceram no vazamento de Edward Snowden é o relatório marcado TOP SECRET que o Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper enviou ao Congresso em 2012, pedindo fundos para 2013. Aqui tem uma excelente página, também do Washington Post, esmiuçando o documento. Nele, o valor pedido para o ano fiscal de 2013 é de US$52.6 bilhões. (Para comparação, os militares do Brasil gastaram US$31.5 bilhões no total em 2013, sendo que o Brasil tem um dos 15 maiores orçamentos militares do mundo). É claro, como esse documento é classificado TOP SECRET, nem o Congresso pode lê-lo! Apenas seletos membros tem acesso ao documento. Quero dizer, tinham, já que essa versão caiu na net. Porém, os pedidos de fundos de 2013-2014 e 2014-2015 ainda são secretos.

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Um exemplo específico de como a Internet foi usada para disseminar informação para afetar um acontecimento em tempo real foi o vazamento da ligação da Secretária Assistente de Estado Victoria Nuland para o Embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt. É um caso mais complexo do que simplesmente a população ter acesso à informações, já que envolveu um grampo telefônico tecnicamente difícil. Mas o vazamento só teve o efeito que teve por conta da Internet.
Em 6 de fevereiro de 2014, foi enviado um vídeo ao YouTube, com legendas em russo, de uma conversação entre um homem e uma mulher, supostamente Pyatt e Nuland. Nela, os dois interlocutores estão traçando uma estratégia para substituir o governo do Presidente Yanukovych. Discutem futuros líderes e como fazer com que as Nações Unidas concordem com um governo de transição. Nuland supostamente solta a infeliz frase, "f***-se a UE (União Européia)", se referindo à frustração com a falta de ação por parte deles.

Inicialmente, houve dúvida sobre a veracidade da gravação. Porém, a própria Nuland deu uma confirmação indireta ao dizer que "é um trabalho impressionante. A qualidade do áudio é muito boa", mas que "não comentaria sobre uma conversa diplomática privada", e a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA Jen Psaki, numa coletiva de dar vergonha alheia, fez malabarismos linguísticos como:
"Eu entendo que há muitos relatos por aí, e uma gravação por aí, mas eu não vou confirmar conversas diplomáticas privadas."
E quando pressionada:
"Essa não é uma acusação que estou fazendo [de que a gravação é forjada]. Só não vou dar detalhes."
Mais pressionada:
"Não disse que não é autêntica. Vamos deixar por aí."
Um pouco mais pra frente, ainda rebatendo o mesmo repórter:
Psaki: "Também deixe-me dizer que [Nuland] está em contato com seus pares da UE e, é claro, pediu desculpas."
Pergunta: "Pediu desculpas pelo quê?"
Psaki: "Por esses comentários noticiados, é claro."
Pergunta: "Então você não está confirmando que os comentários são factuais? Ela-"
Psaki: "Eu simplesmente não vou falar sobre uma conversa diplomática privada"
A maior parte da mídia focou no xingamento, mesmo repetindo que a veracidade da gravação não pode ser determinada. Porém o resto da conversa também é interessante. Nela, Nuland defende o nome de Arseniy Yatseniuk para compor o governo, enquanto Pyatt tem em mente Vitaly Klitschko, o ex-boxeador. Pyatt diz que está tentando "saber o mais cedo possível como vai o casamento de Klitschko". Nuland rebate, dizendo que Yatseniuk é um candidato melhor por sua experiência política e econômica. Bem, aparentemente Nuland estava certa, pois Yatseniuk se tornou o primeiro ministro da Ucrânia três semanas depois.

É claro, na realidade quase não houve reação à essa conversa. Entre as declarações do Departamento de Estado e a falta de vontade da mídia de chegar ao fundo da história, a gravação ficou como uma nota de rodapé no turbilhão que foi a revolução na Ucrânia. Porém, mostrou o potencial de um vazamento em tempo real e também o modo como o governo estadunidense se blindou contra as repercussões dele - basicamente, mentindo.

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Próximo post: Ucrânia.

26.2.15

Novo layout e cores

Mudei um pouco a cara do blog. Melhorou?

23.2.15

Geopolítica e "O Fim dos Tempos" - Parte 1

Olá leitor!

Estou reiniciando as postagens no meu blog. Vamos ver no que dá.

Geopolítica e "O Fim dos Tempos"

Ultimamente, tenho sido perguntado diversas vezes se eu acredito que estamos vivendo "no fim dos tempos". A expressão está aí, no cotidiano, toda vez que a nova decapitação, a nova guerra civil ou o novo escândalo da política aparece nos jornais.
O ser humano sempre criou mitos de destruição total. Sempre houve profetas que anunciaram que "o fim está próximo". E em cada época, se utilizaram dos acontecimentos no contexto em que estavam para argumentarem que estavam certos. Por isso, de início, já recuso o argumento de que "agora" é o fim dos tempos.
Dito isso, mesmo assim, os últimos anos parecem sinalizar uma mudança. A aceleração da entrada da tecnologia em nossas vidas, a comunicação instantânea, as redes sociais, etc., estão mudando as relações sociais. Hoje em dia a palavra "singularidade" está aos poucos entrando no vocabulário. A singularidade é um conceito que o futurista Ray Kurzweil tem propagandeado bastante, principalmente a partir do seu livro de 2005, The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima). A singularidade não é o assunto deste post, mas ela resume essa "sensação" de que há uma mudança significativa em curso (caso se interesse, há muita coisa na Internet sobre a singularidade). Para esse post, eu vou mais atrás.
O especialista em União Soviética, e futuro membro do Conselho de Segurança Nacional do governo de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, escreveu um livro em 1970 chamado "Entre Duas Eras - América: O Laboratório do Mundo". Segundo a Wikipédia, Zbig, para os íntimos, já estava envolvido em política desde 1960, na campanha de John F. Kennedy. O argumento de seu livro está resumido no primeiro capítulo: "O Começo da Era Tecnotrônica". Nele, ele diz:
A transformação que ora ocorre, especialmente nos Estados Unidos, já está criando uma sociedade cada dia mais diversa de sua predecessora industrial. A sociedade pós-industrial está-se tornando uma sociedade "tecnotrônica": sociedade moldada, cultural, psicológica, social e economicamente, pelo impacto da tecnologia e da eletrônica - em especial na área dos computadores e das comunicações.
 Ele continua, mais para frente:
(...) a crise atual da crença institucionalizada ocorre no contexto da revolução tecnotrônica, revolução que não é territorial mas espaço-temporal. 
 Esta nova revolução afeta quase simultaneamente todo o globo, resultando em que as novidades e as novas formas de comportamento movem-se rapidamente de uma sociedade para outro. (...)
No Terceiro Mundo (...) a comunicação e a educação de massa criam expectativas - para as quais a riqueza material dos Estados Unidos fornecem um vago modelo - que simplesmente não podem ser atendidas pela maioria das sociedades. Como nem a comunicação nem a educação podem ser contidas, é de se esperar que as tensões políticas cresçam na medida em que as atitudes puramente paroquiais tradicionais cedam cada vez mais a perspectivas globais mais amplas. (Grifo meu)

Esse argumento grifado me serviu de referência desde que o li. Zbig descreveu um conflito essencial entre os valores e grupos dominantes de uma sociedade qualquer - o status quo -, e as novas gerações que buscam inovar, criar e questionar tais valores e grupos. Só que apontou uma nova fase, em que qualquer um que queira, pode buscar informação e "perspectivas globais mais amplas", instantaneamente. Ainda que a tensão sempre tenha existido, a sociedade "tecnotrônica" a escancara e dinamiza.
Na minha opinião, isso descreve muito bem a situação atual. As populações dos países mais pobres, com instituições menos sólidas, que antes tinham poucos canais de informações e meios de fiscalizar seus governos, passam a questionar as narrativas dominantes. Os canais de informação que eram controlados, restritos, hierarquizados, não conseguem mais ter informações "exclusivas". Pela Internet, a informação voa ao redor do mundo. Isso gera casos como o de Julian Assange, que desenvolveu uma tecnologia para obter e divulgar os "podres" de diversos governos, e que repercutem às vezes de maneira violenta nos países afetados, como na Tunísia. O Twitter e a própria Internet chegaram a ser bloqueados durante os protestos massivos no Egito em 2011. O Instagram foi bloqueado no auge dos protestos em Hong Kong em 2014.
Ainda assim, há muito controle. A TV ainda é o instrumento de informação e controle mais forte, mas a tendência é clara: quanto mais jovem, menos peso é dado para a informação da TV. Outro fenômeno que veio dessa nova era de comunicação foram as novas formas de organização. Ainda que os núcleos - os sindicatos, os movimentos sociais, os centros acadêmicos - se reúnam "fisicamente", a divulgação de protestos está totalmente inserida e potencializada pelas redes sociais. E tais protestos reúnem indivíduos que talvez nunca se encontrariam, criando novos laços...

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Portanto, pra mim, quando se fala em "fim dos tempos", essa sensação é consequência de que o indivíduo hoje pode escolher mil e uma fontes para obter informações sobre o mundo ao redor. E assim, pode ser que muitos conflitos, que antes estavam do outro lado do mundo e não passavam no Jornal Nacional, agora passem a aparecer na sua Timeline do Facebook. Ou seja, não é exatamente que haja cada vez mais conflitos, guerras, golpes de estado e revoluções no mundo, mas que a visibilidade desses conflitos é muito maior agora. Essa "mera" visibilidade tem consequências para os que mexem os pauzinhos de tais mudanças... (Continua na parte 2)
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